Alcoolismo: quando é hora de buscar ajuda?

18 de fevereiro, 2022

O alcoolismo é o consumo constante, abusivo e descontrolado de bebidas alcoólicas. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro do Fígado (Ibrafig), por exemplo, mostra que 55% da população brasileira tem o hábito de consumir bebidas com álcool. Do total, 17,2% pessoas declararam aumento do consumo durante a pandemia de Covid-19, associado a quadros de ansiedade graves por conta do isolamento social.

De acordo com o levantamento, uma em cada três pessoas no país consome bebidas alcoólicas pelo menos uma vez na semana. O consumo abusivo de bebidas alcoólicas foi relatado por 18,8% dos brasileiros ouvidos na pesquisa. O estudo mostra ainda que, em média, os brasileiros ingerem três doses de álcool por ocasião, o que representa 450 ml de vinho ou três latas de cerveja. Os dados foram levantados com base na resposta de 1,9 mil pessoas, espalhadas pelas cinco regiões do país.

Fatores de risco

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), droga é toda e qualquer substância não produzida pelo organismo e que, ao ser ingerida, modifica uma ou mais de suas funções. Essas drogas alteram, sobretudo, aspectos físicos, emocionais e relacionados ao pensamento e ao comportamento.

De acordo com o Dr. Rafael Maksud, psiquiatra e especialista em Saúde Pública, Dependência Química e Psiquiatria Ambulatorial e Integrativa, o álcool é um depressor do sistema nervoso central, ou seja, uma droga psicoativa que altera a percepção da pessoa, pois bloqueia a transmissão de mensagens dos receptores nervosos para o cérebro.

“Quando a pessoa bebe, se sente relaxada, já que sua percepção diminui. No entanto, o consumo regular reduz os níveis de serotonina no cérebro, um dos neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer e bem-estar. Sendo assim, o álcool agrava a ansiedade e, principalmente, a depressão”, afirma o psiquiatra.

“O hábito de ‘beber socialmente’ coloca as pessoas em contato constante com o álcool, seja em ocasiões comemorativas e até eventos de trabalho. A grande armadilha é que o ‘beber socialmente’ pode evoluir para uma dependência”, diz Monica Machado, psicóloga pela USP.

Segundo os especialistas, alguns fatores que podem desencadear a dependência alcoólica são:

  • Associar o álcool à diversão;
  • Beber em qualquer situação, seja um evento familiar ou de trabalho, por exemplo;
  • Histórico familiar de abuso do álcool;
  • Contato precoce com a bebida;
  • Ter problemas de saúde mental não administrados.

Como identificar o alcoolismo

O metabolismo do álcool pelo organismo é feito principalmente pelo fígado, que remove cerca de 98% da substância do corpo humano. O restante é eliminado por rins, pulmão e pele.

Já os sinais de embriaguez são bem conhecidos: euforia, alterações no comportamento, perda da timidez, emotividade exagerada e, em alguns casos, tendência à agressividade. “No entanto, em um quadro de alcoolismo, os sintomas e sinais são muito mais graves, e requerem atenção de amigos e familiares”, alerta Rafael Maksud.

Confira alguns sinais que indicam a hora de buscar ajuda:

Vontade de beber o tempo todo

A bebida alcoólica é uma substância química que atua no sistema nervoso central, por isso, gera sensações de prazer, euforia e entorpecimento. “A pessoa que já tem inclinação para o álcool vai usar todo tipo de argumento para beber. A bebida se torna a solução quando se está triste, frustrado ou desanimado. Da mesma forma, qualquer motivo de alegria vira pretexto para fazer um brinde”, pontua a psicóloga Monica Machado.

Além disso, explica a especialista, com o aumento do consumo, a tendência é que a pessoa se torne mais resistente aos efeitos do álcool e tenha necessidade de beber cada vez mais.

Comprometimento no raciocínio

Pelo fato de atuar no sistema nervoso, é comum o álcool afetar a capacidade cognitiva. “Entre as drogas psicoativas ou psicotrópicas, ele é classificado como um depressor. Ao longo do tempo, o abuso do álcool pode causar cansaço físico e dificuldade de raciocínio. Confusão mental e até alucinações podem ocorrer em casos mais graves”, explica Rafael Maksud.

Danos ao organismo causados pelo alcoolismo

O uso excessivo e prolongado do álcool pode irritar a mucosa estomacal, gerando gastrite. Essa confere muito desconforto, uma vez que causa ardência, queimação, dores de cabeça, entre outros sintomas.

Além disso, podem surgir consequências mais graves, tais como: aumento da pressão arterial, problemas no coração e pâncreas, como pancreatite, além de hepatite e cirrose, bem como distúrbios do sistema nervoso, como desatenção e tremedeira. O fígado, por sua vez, é um dos principais órgãos afetados, pois armazena o glicogênio (a nossa reserva de glicose, que oferece energia aos animais, inclusive o humano) e o libera aos poucos para a corrente sanguínea.

“A falta de bebida alcoólica também pode causar a síndrome de abstinência, quando a concentração de álcool no sangue diminui e costuma gerar irritabilidade, ansiedade, taquicardia e suor em excesso (sudorese). Em casos extremos, pode provocar convulsões e até levar a óbito”, aponta o psiquiatra.

Neste contexto, o convívio social e familiar é afetado. “As pessoas deixam de querer estar com a pessoa que bebe excessivamente por temerem passar por uma situação desagradável ou pelo cansaço proporcionado pela convivência”, diz Monica Machado.

De acordo com a especialista, é imprescindível buscar ajuda especializada. “O apoio de amigos e familiares é fundamental para a recuperação do alcoolismo, mas não é todo mundo que consegue ter estrutura emocional para lidar com a situação. Alguns vínculos afetivos, inclusive, podem se romper ou ficarem abalados em face deste problema”.

Opções de tratamento gratuito

  • Alcoólicos Anônimos: O grupo de ajuda mútua é referência no apoio ao alcoólatra que quer parar de beber. As reuniões são gratuitas e sigilosas. Presente no Brasil há 80 anos, o Alcoólicos Anônimos possui reuniões em quase todas as cidades do Brasil. 
  • CAPS AD (Álcool e Drogas): Os Centros de Atenção Psicossocial são unidades de saúde feitas para atender gratuitamente quem precisa tratar o alcoolismo. Dessa forma, o acompanhamento é realizado através de médicos, psicólogos e terapeutas. Também há abertura para a participação da família.

Quando o alcoólatra mora em uma cidade que não tem o CAPS – AD, pode procurar um CAPS tradicional (que cuida da saúde mental) ou uma unidade básica de saúde de seu município para fazer o tratamento. Se houver necessidade de internação, é o próprio CAPS que faz a solicitação e encaminha o paciente para alguma das instituições associadas.

Fontes: Dr. Rafael Maksud, psiquiatra da Clínica Ame.C, especialista em Saúde Pública, Dependência Química e Psiquiatria Ambulatorial e Integrativa pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e pelo Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB);

Monica Machado, psicóloga pela USP, fundadora da Clínica Ame.C, pós-graduada em Psicanálise e Saúde Mental pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein.

Sobre o autor

Redação
Redação
Todos os textos assinados pela nossa equipe editorial, nutricional e educadores físicos.