Síndrome do intestino irritável: conheça as causas, sintomas e tratamentos

28 de abril, 2022

Os sintomas da síndrome do intestino irritável (SII) caracterizam-se, frequentemente, em dor e distensão abdominal, constipação e diarreia. Trata-se de uma doença crônica que, ao contrário do que muitos imaginam, não evolui para câncer de intestino, nem oferece riscos maiores, mas pode afetar a qualidade de vida e ser muito incapacitante. Entenda as causas, sintomas, tratamentos e prevenção da síndrome.

O que é a síndrome do intestino irritável?

A definição da SII, de acordo com Joaquim Prado Pinto de Moraes Filho, diretor da Federação Brasileira de Gastroenterologia, é de uma doença “funcional digestiva”. “Não há nenhuma alteração anatômica ou morfológica. É a função que não está indo bem. O cérebro se comunica com o intestino o tempo todo, e de uma forma muito harmoniosa. Mas, em algumas circunstâncias, essa conexão falha”, explica o médico, que também é professor associado de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP. Segundo a Federação, a SII acomete entre 5 a 10% da população adulta, na maioria jovens do sexo feminino.

É considerada grave?

Felizmente, a SII não está relacionada com complicações graves do quadro de saúde do paciente. Assim, trata-se de uma doença benigna e com boa evolução, se tratada adequadamente. Além disso, apesar dos sintomas gerarem muito desconforto e estresse emocional, a síndrome do intestino irritável não evolui para doenças mais graves como o câncer.

No entanto, é importante o acompanhamento com um especialista para monitorizar os sintomas e investigar outras doenças caso ocorram mudanças importantes no quadro. Ao longo do acompanhamento, menos de 5% dos pacientes com síndrome do intestino irritável terão o diagnóstico de alguma outra doença gastrintestinal.

Quais são as causas da síndrome do intestino irritável?

De acordo com a Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva e Neurogastroenterologia, a causa de SII ainda não foi completamente esclarecida. Por enquanto, acredita-se que haja uma hipersensibilidade visceral, responsável pelos sintomas, que pode ser agravada pela ingestão de certos alimentos. Porém, admite-se que seja um distúrbio multifatorial relacionado com alterações neurológicas diretamente relacionadas ao intestino. Além da ingestão alguns de alimentos, os sintomas podem ser precedidos de alterações psicossomáticas, principalmente o estresse.

Saúde mental X SII

Desde o lançamento do livro O Segundo Cérebro, do médico norte-americano Michael Gershon, em 1998, crescem as evidências – tanto nos consultórios quanto nas pesquisas – de que há uma conexão entre o cérebro e o intestino. Estudo publicado no fim de 2021 no periódico científico Nature Genetics, por exemplo, analisou os dados genômicos de 53,4 mil pessoas com SII e de 433,2 mil indivíduos sem o diagnóstico. Como resultado, descobriram-se seis genes que aumentam a suscetibilidade à doença. Desses, quatro também estão associados a transtornos de humor e ansiedade.

Outro ponto em comum é a ação do hormônio serotonina. Além de ser responsável pela sensação de bem-estar, o neurotransmissor é parte importante na regulação da motilidade (movimentação) do intestino, e boa parte é produzido pelas células enterocromafins do órgão, de acordo com Carlos Walter Sobrado, membro titular e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e professor do departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP.

“Há algumas situações em que você vê a depressão [no paciente] e depois vê a síndrome do intestino irritável. Algumas pessoas não se preocupam tanto com os transtornos psicológicos, mas procuram o médico quando há os sintomas intestinais e, então, se deparam com os problemas emocionais”, relata o especialista, que orienta aos indivíduos diagnosticados com transtornos mentais a prestarem atenção aos sintomas intestinais ou buscarem auxílio médico para orientações preventivas.

Fatores de risco

A prevalência da condição, de acordo com Moraes Filho, varia entre 10% a 15%, e é mais comum em mulheres entre os 30 e 50 anos. “Isso não quer dizer que a pessoa com 24 ou 56 não possa ter a síndrome, mas o predomínio é nessa faixa etária. A prevalência cai depois dos 60 anos, e o motivo é difícil de interpretar, mas o aspecto psicoemocional e a vivência da pessoa mais velha são diferentes, bem como a sensibilidade [do intestino]”, explica o especialista.

Além da idade, outros fatores de risco são descritos, como:

Dentre os fatores de risco, o antecedente de infecção é o mais reconhecido agente causal da SII, estando correlacionado em até 20% dos casos.

Tipos de síndrome do intestino irritável

A classificação da síndrome do intestino irritável é feita em quatro subtipos que levam em consideração a frequência e forma das evacuações:

  • SII com predomínio de diarreia (SII-D): fezes amolecidas ou pastosas em ≥ 25% e fezes endurecidas ou ressecadas < 25% das evacuações;
  • SII com predomínio de constipação (SII-C): fezes endurecidas ou ressecadas em ≥ 25% e fezes amolecidas ou pastosas < 25% das evacuações;
  • Síndrome do intestino irritável forma mista (SII-M): fezes endurecidas ou ressecadas ≥ 25% e fezes amolecidas ou pastosas ≥ 25% das evacuações;
  • SII forma indeterminada: critérios insuficientes para inclusão do paciente em um dos grupos acima.

Sintomas

Dos sintomas mais associados à SII, estão:

  • Desconforto e dor abdominal;
  • Barriga inchada;
  • Cólica frequente;
  • Produção exagerada de gases;
  • Alternância na frequência evacuatória (períodos de diarreia seguidos de prisão de ventre);
  • Alteração no aspecto das fezes;
  • Sensação de evacuação incompleta.

Dessa forma, os sintomas podem estar presentes por meses, o que interfere diretamente na qualidade de vida dos pacientes. Entretanto, as queixas relatadas na SII são muito semelhantes aos sintomas de outras condições que atingem o trato gastrointestinal, o que dificulta o diagnóstico.

Leia mais: Ansiedade e intestino: Como a condição pode afetar o órgão

Diagnóstico da síndrome do intestino irritável

Atualmente, o diagnóstico da SII é estabelecido a partir de critérios clínicos definidos pelo ROMA IV (veja abaixo). Além disso, flatulência e distensão abdominal, quando presentes, também favorecem a suspeita clínica.

Para confirmar o diagnóstico, os pacientes devem relatar os sintomas por pelo menos 12 semanas consecutivas. “Às vezes a pessoa come alguma coisa diferente, ou está em uma semana mais estressante, e o intestino fica desregulado, mas depois volta ao normal. Então, não é intestino irritável”, explica Sobrado.

“É importante também que o médico, além de afastar as outras doenças do intestino, também exclua a intolerância à lactose e ao glúten. Às vezes o paciente vem ao consultório, cita os alimentos que causam mais sintomas e, ao pedir os testes, identificamos a intolerância”, destaca.

Caso a pessoa apresente os sintomas e tenha lesões na estrutura do órgão, o diagnóstico muda. “Se houver alteração estrutural, pode ser a doença diverticular, neoplasia ou tumor do intestino, retocolite ou doença de Crohn. Precisamos afastar essas doenças para dizer que se trata da SII”, reforça. Para a confirmação, podem ser necessários exames laboratoriais e de imagem, como colonoscopia ou, eventualmente, tomografia.

Critérios de ROMA IV para diagnóstico de SII

Os critérios de Roma, utilizados para diagnosticar a SII, levam em conta dor abdominal recorrente (≥ 1 dia por semana, nos últimos 3 meses, com início 6 meses antes do diagnóstico) associada a 2 dos 3 critérios:

  • Dor relacionada à evacuação;
  • Alteração da frequência evacuatória;
  • Alteração do formato das fezes.

Afinal, a síndrome do intestino irritável tem cura?

Não há cura para a síndrome do intestino irritável, mas um tratamento adequado fará toda a diferença para a qualidade de vida do paciente.

Tratamento da síndrome do intestino irritável

Embora não tenha cura, a condição pode ser controlada com medicamentos (que vão atuar nos sintomas mais agudos) e com mudanças na alimentação, inclusão de exercícios físicos e melhora no controle do estresse. Confira:

Exercícios físicos

A princípio, a prática de atividade física é consenso de todas as áreas da saúde no que tange a melhoria da qualidade de vida. Pensando nisso, sabe-se que o exercício físico está ligado diretamente com a melhoria do trânsito intestinal. A prática da Yoga, por exemplo, tem sido relatada como um regime de exercícios que eleva o tônus simpático, que é diminuído em pacientes com SII. Dessa forma, terapias físicas e comportamentais ajudam, também, na disfunção do assoalho pélvico que é subdiagnosticada em pacientes com SII, especialmente aqueles com o subtipo de constipação.

Reeducação alimentar

A reeducação alimentar é o principal método não farmacológico para o alivio dos sintomas da SII. Isso porque muitos pacientes com a síndrome possuem intolerância a diversos alimentos associados a distúrbios da má absorção de açúcar e permeabilidade intestinal. Por isso, as principais formas de dietas recomendadas são as restritivas individualizadas para necessidade do paciente e feita com acompanhamento de profissionais da nutrição.

Dessa forma, as mais relevantes medidas recomendadas são o aumento da ingestão de água e fibras solúveis, principalmente em pacientes com constipação. Assim, fibras como psyllium ou farelo de aveia são recomendadas entre 25 a 35 g ao dia e apresentam ação direta na microbiota intestinal, aumentando o tempo de trânsito tintestinal. Porém, é recomendado evitar o consumo de fibras insolúveis por aumentar a produção de gases e piorar os sintomas de bloating e flatulência

Evitar alimentos mais gordurosos, como as frituras, além de café, chocolate e bebidas alcoólicas são essenciais, especialmente porque esses itens aumentam a produção de gases. Além de remédios contra a dor, podem ser indicados o uso de fibras naturais, que hidratam as fezes e ajudam a regularizar o intestino; e dos probióticos, como o kefir.

“É fundamental ter um acompanhamento multidisciplinar do paciente com SII. Apesar das orientações e dos medicamentos, o paciente também se beneficia do cuidado psicológico e nutricional”, explica Sobrado.

Fodmaps

Nos últimos anos, tem-se estudado muito sobre o papel dos carboidratos fermentativos (FODMAPs– Fermentable Oligoccharides, Dissaccharides e Polyols) na exacerbação dos sintomas da SII. Trata-se de carboidratos de cadeia curta que não são completamente digeridos ou absorvidos e, consequentemente, são fermentados no intestino. Estudos recentes comprovam a eficácia da exclusão temporária de alimentos ricos em FODMAPs na redução dos sintomas gastrintestinais.

Portanto, é considerado considerada o tratamento de primeira linha para distensão abdominal e flatulência. Dessa forma, é imprescindível que o paciente seja bem avaliado e encaminhado para um nutricionista capacitado para elaborar uma dieta adequada e que esteja relacionada com a redução dos sintomas relatados. O acompanhamento nutricional é fundamental, uma vez que, ao serem excluídos da dieta diversos alimentos considerados prejudiciais, criam-se regimes alimentares desequilibrados e que podem acarretar deficiências nutricionais. Confira os alimentos ricos e pobres em FODMAPs:

Alimentos ricos em FODMAPs

Além disso, adoçantes artificiais (como o sorbitol e manitol), também podem ser mal absorvidos por algumas pessoas.

Alimentos pobres em FODMAPs

Medicamentos

 Em termos de medicamentos, os de uso mais comum são remédios contra cólicas, gases, antidiarreicos ou anticonstipação. “Há, ainda, medicamentos específicos que atuam no controle da motilidade intestinal. No entanto, é importante que sejam usados apenas com estrita indicação médica, por causa dos efeitos colaterais, incluindo problemas cardiológicos”, explica o Dr. Gustavo.

Dessa forma, é comum a recomendação de probióticos, especialmente a Lactobacillus e Saccharomyces, que estão ligados diretamente com a melhora da dor abdominal e do transito intestinal. Além disso, o especialista também pode recomendar medicamentos como Linaclotide, Loperamida, Rifaximina, antiespasmódicos (indicados para o tratamento da dor abdominal) e antidepressivos.

O fato é que remédios, mesmo os que aparentam ser mais inofensivos, podem gerar efeitos colaterais indesejáveis. Por isso, a automedicação deve ser evitada. Em vez de ir à farmácia, o melhor é agendar consulta com o médico, que tem condições de fazer uma abordagem mais ampla e efetiva.

Abordagens alternativas para o tratamento

Nesse quesito enquadram-se diversos tipos de terapias. Por exemplo, o uso de fitoterápicos, como chás. A terapia comportamental cognitiva (TCC), terapia psicológica de diversos componentes e psicoterapia dinâmica são indicados para alguns pacientes reconhecem que seus sintomas surgem ou são agravados pelo estresse e pela ansiedade.

Como prevenir a síndrome do intestino irritável?

Não há maneira de prevenir a SII, já que sua causa ainda é desconhecida. No entanto, ter um estilo de vida saudável pode ajudar a prevenir os sintomas:

  • Ter uma dieta balanceada;
  • Comer refeições regulares e não pular refeições;
  • Dormir o suficiente cada noite, geralmente de 7 a 9 horas por noite;
  • Reduzir e controlar o estresse;
  • Evite alimentos gordurosos, consumo excessivo de cafeína e drogas recreativas como álcool e cigarro;
  • Praticar exercícios físicos regularmente.

Diferentes especialidades médicas envolvidas nos cuidados

O coloproctologista é o médico especialista que estuda e cuida de órgãos do sistema digestivo: intestino grosso, reto e ânus. Assim, ele é mais indicado no tratamento da síndrome do intestino irritável.

Ao procurar um coloproctologista, ele irá avaliar o quadro apresentado pelo paciente e, com base na exclusão de outras doenças com características semelhantes e por meio de exames complementares, será possível chegar ao diagnóstico da síndrome do intestino irritável.

O que perguntar para o médico na consulta

A síndrome do intestino irritável pode causar câncer colorretal?

Não, felizmente, a síndrome não é maligna, ou seja, não provoca nenhum tipo de lesão no intestino e não evolui para câncer colorretal ou outras patologias mais graves relacionadas ao intestino.

Intestino preso e síndrome do intestino irritável são a mesma coisa?

A constipação intestinal (intestino preso) pode existir sem a síndrome do Intestino irritável, sendo que a causa principal é a falta da ingestão de fibras e líquidos na alimentação. Já a síndrome do intestino irritável pode ter em sua composição a constipação intestinal sendo a sua causa multifatorial.

Como ler os rótulos para saber se têm algo que não posso comer?

Há algumas regras básicas para ler rótulos, como verificar a ordem dos ingredientes e identificar ingredientes altos em FODMAPs. Outra coisa que ajuda é optar, sempre que possível, por alimentos frescos e naturais.

É verdade que não devo comer glúten?

Não necessariamente. O que acontece é que produtos com glúten costumam ter também frutanos, que são um dos gatilhos para quem tem SII. Claro que, pode dar-se o caso de ter intolerância ao glúten ou até doença celíaca. Pode sempre pedir ao seu médico que verifique essa possibilidade, até para perceber se, na fase de reintrodução, quando testar o grupo dos frutanos, deve-se manter longe de pão, massa e afins.

Os sintomas podem piorar com a menstruação?

Muitas vezes sim, embora não seja a realidade de todas as mulheres com SII. Caso ocorra, o ideal é se consultar com um médico para saber se o problema se deve ao trato gastrointestinal ou a problemas ginecológicos, ou a ambos.

Programas Vitat – Linha de Cuidados para quem sofre de síndrome do intestino irritável

Virada saudável

Clique aqui e saiba mais.

Fonte: Agência Einstein

Referências:

Revista FBG (Federação Brasileira de Gastroentereologia)
Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva e Neurogastroenterologia
Pará Research Medical Journal

Sobre o autor

Fernanda Lima
Jornalista e Subeditora da Vitat. Especialista em saúde