Síndrome de Burnout: O que é e como evitá-la

21 de June, 2022

O mundo profissional exige cada vez mais produtividade e eficiência. Isso está deixando as pessoas doentes — e não é uma doença qualquer. A Síndrome de Burnout entrou no radar da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, mas foi no início de 2022 que ela passou a ser considerada uma doença ocupacional (ou seja, relacionada ao trabalho).

Sendo assim, garante ao empregado direitos trabalhistas como licença médica e até mesmo aposentadoria por invalidez. A síndrome também integra a Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O termo nasceu no inglês, pela junção das palavras “burn”, que significa queimar, e “out”, sendo “por fora, saída, mostrando o lado exterior”. Sendo assim, a síndrome de Burnout “queima de dentro para fora”. No início, não é algo visível, mas não deixa de ser menos sério por isso.

Nesse contexto, burnout significa entrar em colapso físico e mental por causa da pressão excessiva no trabalho e do acúmulo de funções e responsabilidades que, ao longo do tempo, causam consequências para a saúde.

Porque a síndrome de Burnout acontece?

O transtorno da Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional,  se tornou popular e foco de atenção na saúde e bem-estar dos trabalhadores de muitas empresas. Esse distúrbio psicológico é caracterizado por um estado de tensão emocional e estresse, resultados das condições de trabalho.

Esse transtorno é mais comum em profissionais que lidam diariamente com pressão no trabalho ou metas a serem batidas, por exemplo: médicos, jornalistas, professores, advogados, policiais. Além disso, a falta de reconhecimento, síndrome do impostor — onde a pessoa crê que não é capaz de realizar suas tarefas profissionais — e problemas sociais com os colegas também colaboram para o diagnóstico.

Burnout na pandemia

Uma pesquisa da Microsoft apontou um aumento de 44% de brasileiros com esgotamento profissional. “A Síndrome de Burnout, consequência do excesso ou sobrecarga de trabalho, se agravou na pandemia. Assim, a pessoa se sente literalmente exausta, esgotada física e psicologicamente, seja por causa do número de horas trabalhadas, seja pelo estresse provocado pelas condições de trabalho”, explica a psiquiatra Danielle H Admoni.

Outro estudo da PEBMED, publicado em 2020, mostrou que durante a pandemia da Covid-19 no Brasil, 78% dos profissionais de saúde tiveram algum sinal da Síndrome de Burnout. Entre eles, 79% eram médicos, 74% enfermeiros e 64% técnicos de enfermagem. Em 2019, a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) também revelou que dos trabalhadores em um todo, 30% dos mais de 100 milhões de empregados brasileiros sofriam com o distúrbio.

O home office, por exemplo, se tornou uma rotina para muitos profissionais. No entanto, nem todos conseguiram se adaptar às mudanças. “Pacientes relatam desânimo, dificuldade de raciocínio, ansiedade, irritabilidade, sensação de incapacidade, diminuição da motivação e da criatividade, entre outros sintomas”, conta o também psiquiatra Adiel Rios.

A privação do sono também é um forte gatilho para a Síndrome de Burnout. “Quando o profissional não dorme o suficiente para ser produtivo ou trabalha até tarde da noite, sua rotina do sono é prejudicada. O que desregula, desse modo, o relógio biológico. Isso resulta em uma extrema exaustão, pois o organismo, que já está habituado com um determinado padrão de sono, sofre um forte impacto, precisando de tempo e resistência para se adequar às mudanças”, reforça Adiel.

Atenção aos sintomas da Síndrome de Burnout

A Síndrome de Burnout geralmente se inicia com episódios de estresse pontuais, mas que se tornam cada vez mais recorrentes até que a pessoa se sinta esgotada. 

Imagine a cena: você embarca em um desafio profissional e quer ser reconhecido pelo seu esforço. Então, começa a trabalhar duro, estica o horário um dia, depois outro… Quando vê, está assumindo mais tarefas do que dá conta e vai ficando mais sobrecarregado, sem energia e tampouco se sente motivado para outras atividades. Esse é um exemplo de situação na qual uma pessoa pode desenvolver a Síndrome de Burnout, que se resume a 10 estágios:

  • 1 – Dedicação intensificada aos assuntos do trabalho;
  • 2 – Descaso com as necessidades pessoais;
  • 3 – Aversão a conflitos;
  • 4 – Reinterpretação dos valores;
  • 5 – Negação de problemas;
  • 6 – Recolhimento e aversão a reuniões. Além disso, mudanças evidentes de relacionamento com os pares e objetos (dificuldade de aceitar certas brincadeiras com bom senso e bom humor);
  • 7 – Despersonalização (momentos de confusão mental em que a pessoa não sente seu corpo como habitualmente. Desse modo, pode se sentir flutuando ao ir ao trabalho, tem a percepção de que não controla o que diz ou o que fala, não se reconhece);
  • 8 – Depressão, vazio interior e sensação de que tudo é complicado, difícil e desgastante;
  • 9 – Colapso físico e mental;
  • 10 – Estado de emergência. Ajuda médica e psicológica se tornam urgentes.

O primeiro estágio até parece inocente. Ser um profissional dedicado e interessado no trabalho é muito bom, pois ajuda a ampliar as perspectivas de carreira. Mas existe uma linha tênue entre se empenhar e deixar tudo de lado para se entregar completamente às necessidades profissionais. 

E então, se identificou com alguns desses estágios e com a situação?

Tipos de Burnout

Síndrome de Burnout por sobrecarga

Quando o colaborador recebe tarefas além da conta. Para conseguir cumprir com os prazos, trabalha por mais horas por dia ou não faz pausas de descanso. Então, está sempre preocupado com as atividades do emprego e pensa constantemente, mesmo fora do horário de trabalho, sobre as tarefas.

Assume diversas tarefas que não são da própria função e acredita que isso ajuda no desempenho profissional. Contudo, não nota o reflexo desse esforço na saúde.

Burnout por falta de suporte e negligência

A falta de reconhecimento, feedbacks e reuniões de bem-estar também podem causar o distúrbio. Sendo assim, as faltas de desafios profissionais no dia a dia colaboram para o diagnóstico. Em outros casos, ter uma rotina sem muita movimentação e novidades se torna outro fator da síndrome.

Além disso, conviver com situações estressantes relacionadas aos colegas e/ou omissão do RH sobre casos abusivos.

Síndrome de Burnout por autossabotagem

Neste caso, o distúrbio é causado pelo profissional não achar que consegue realizar o trabalho designado. Isso vale para o trabalho sozinho, em time ou ajuda da empresa. Isso tudo gera a sensação de incompetência, desmotivação, falta de criatividade — também presentes na síndrome do impostor.

Outras vertentes

Primeiramente, o termo se associou apenas a trabalho profissional. No entanto, outras áreas da vida também podem estar ligadas à síndrome. Quando falamos de relações, o trabalho para manter esses relacionamentos também desencadeiam outros tipos do transtorno. Por exemplo:

Burnout materno ou parental: o termo ganhou força na pandemia. Assim, o home office para as mães é além da carga de horário profissional: o trabalho de cuidado com as crianças também pesa no dia a dia. Dessa forma, o sentimento de desamparo, baixa autoestima, perda de apetite e culpa profunda definem o distúrbio. Buscar ajuda também é ideal.

No distúrbio parental, os pais também são afetados. Buscar o tratamento é muito importante, pois esse tipo de Burnout pode afetar diretamente as crianças. Quando pressionados, os pais acabam descontando essa frustração nos pequenos, o que pode gerar violência verbal e física. Além disso, esse quadro também vale para os filhos que sofrem com a pressão imposta pelos pais.

Burnout afetivo: Além disso, os relacionamentos afetivos, sejam eles amorosos ou amigáveis, também podem levar à exaustão. Sentir que os relacionamentos são superficiais, ter que “pisar em ovos” para falar com as pessoas ou achar que o relacionamento é muito trabalhoso são alguns dos pontos que definem o transtorno.

Será que sou vítima da Síndrome de Burnout?

Somente um psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de áreas correlatas é capaz de realizar o diagnóstico correto. No entanto, os sintomas são fundamentais para ficar atento e procurar ajuda:

  • Cansaço crônico: qualquer atividade simples torna-se exaustiva;
  • Dificuldade de se concentrar;
  • Episódios constantes de irritabilidade e alterações de humor;
  • Fugas frequentes do trabalho e de outros compromissos;
  • Desânimo e perda de interesse por qualquer assunto que não seja relacionado ao trabalho;
  • Crises de estresse frequentes;
  • Tremores;
  • Falta ou excesso de apetite;
  • Insônia;
  • Ansiedade;
  • Taquicardia;
  • Pressão alta;
  • Exteriorização de problemas na pele;
  • Crise de asma;
  • Problemas gastrointestinais;
  • Depressão.

Ademais, outra forma de perceber se algo não vai bem é analisar o quanto você se desgasta no trabalho e os sentimentos que são despertados em um momento de estresse ou pressão. Por isso, avalie se são emoções passageiras ou se elas permanecem mesmo depois de “largar a caneta”. 

Leia também: Ansiedade: O que é, sintomas e como controlar

Dessa forma, caso perceba que a pressão está acima do normal e que você não está conseguindo mais lidar bem com ela, vale procurar ajuda profissional e conversar com seus gestores.

Consequências que o transtorno pode trazer

Uma consequência frequente do problema é o uso de drogas (álcool, tabaco, além das drogas ilícitas) como forma de alívio. “É importante prestar atenção na situação, uma vez que ela agravará ainda mais a condição física e mental do indivíduo. O mesmo pode ser dito da automedicação”, frisa a psiquiatra Danielle H. Admoni.

Nos casos em que a Síndrome de Burnout já está instalada, recomenda-se buscar auxílio médico especializado para avaliação do quadro e orientação quanto ao tratamento. “Especialmente no caso de pessoas cujas características de personalidade as tornam mais propensas ao Burnout, a psicoterapia é um complemento importante, pois o problema está, muitas vezes, dentro da pessoa”, avalia a psicóloga Monica Machado.

Além disso, pessoas que abusam do consumo do álcool e usuários de drogas são pré-dispostas e mais propícias a desenvolverem o distúrbio.

Perguntas frequentes sobre o transtorno

Como saber a diferença entre Burnout, depressão e ansiedade?

Os três transtornos psicológicos têm sintomas parecidos. Portanto, é preciso avaliar junto com um profissional (psicólogo ou psiquiatra) o que leva às crises no dia a dia. Tudo dependerá da investigação do profissional sobre a carga de estresse e tristeza.

Em conclusão, é preciso verificar se o estresse está ou não realizado ao trabalho. Isso não descarta o fato de que com o tempo, a síndrome pode causar quadro depressivo e ansioso.

Quanto tempo leva o tratamento da Síndrome de Burnout?

Alguns fatores influenciam o tempo de tratamento. Em casos descobertos em estágio inicial e que começam o tratamento cedo, o tempo é de pequeno prazo. Sendo assim, casos mais graves e que não são tratados rapidamente podem levar anos até que o transtorno se estabilize.

De toda maneira, a manutenção regular da questão profissional e o cuidado com as tarefas no trabalho colaboram para que a síndrome não apareça.

Como abordar a doença com o RH?

Nestes casos, é comum que o colaborador se sinta desconfortável e receoso de comunicar a empresa. Contudo, é preciso deixar o RH ou responsável ciente da condição.

Deixe o superior bem informado sobre o que está acontecendo no dia a dia e pergunte como esses motivos de estresse podem ser evitados. Então, em algumas empresas, há realocação de times e mudanças nas regras internas. Seja sempre claro e sincero sobre o assunto.

Posso ser demitido por sofrer com Burnout?

Assim como em qualquer outra doença, o ideal é que o colaborador não perca o emprego após o retorno, caso haja uma pausa para recuperação.

Com a nova lei, em vigor desde janeiro de 2022, após diagnóstico confirmado, o trabalhador com Burnout pode ser afastado por até 15 dias sem perder o emprego. Além disso, a licença médica também evita os descontos dos dias ausentes na folha de pagamento.

Em casos mais graves, onde é preciso solicitar afastamento por período longo, esse colaborador irá contar com auxílio-doença e estabilidade por 12 meses após seu retorno.

Em caso de abuso do RH, ameaças ou atitudes perigosas, processos trabalhistas podem ser feitos do colaborador para a empresa.

Como voltar a ter confiança no trabalho?

É uma questão a ser trabalhada com o tempo. Como já citado, o acompanhamento psicológico é necessário. Lidar com as questões psicológicas e não as deixar de lado é ponto importante do processo.

Portanto, pedir feedbacks e aceitar as críticas construtivas de forma leve ajuda no dia a dia.

Como evitar a Síndrome de Burnout

Antes mesmo de notar que a relação com o trabalho está extrapolando os limites e atrapalhando a saúde, é importante seguir um estilo de vida saudável e equilibrado. 

Exercite-se com frequência para estimular o corpo a produzir endorfina e outros hormônios responsáveis pelo bem-estar e pelo relaxamento. Portanto, atividades como ioga e meditação são excelentes para ganhar mais autoconhecimento, foco no momento presente, desestressar e se preocupar menos com o futuro.

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Por fim, desfrutar de uma rotina de autocuidado e lazer, além de aprender a estabelecer limites no trabalho, são as melhores ferramentas para manter sua saúde física e mental preservadas.

O tratamento da Síndrome de Burnout

O diagnóstico da síndrome é feito por meio da avaliação de um psicólogo ou um psiquiatra, e suas formas de tratar podem ser diversas. Em casos mais graves pode haver uso de medicamentos. Tudo dependerá do estágio em que o distúrbio está. Dessa forma, o tratamento psiquiátrico com antidepressivos e ansiolíticos ajuda.

Contudo, o método mais comum é a terapia. Sendo assim, o psicólogo ajuda o indivíduo a perceber suas perdas com essa relação abusiva profissional. Aos poucos, também auxilia a modificar sua forma de se relacionar com o trabalho, transformando o comportamento e a visão de carreira. 

O mais importante é, sempre que possível, mudar os hábitos no trabalho. Se for o caso de trabalhar excessivamente, tentar maneirar a carga horária. Então, se o problema for com o ambiente, é possível conversar sobre o diagnóstico com o especialista de RH ou até mesmo mudar de emprego em prol da sua saúde.

Em muitos casos, os trabalhadores ignoram os sintomas. Entretanto, essa demora no diagnóstico pode agravar ainda mais o estado da síndrome de Burnout no paciente. No mais, em casos de dúvidas sobre o seu diagnóstico ou se sentir os sintomas citados, busque ajuda médica.

Dicas para as empresas 

Por fim, não podemos nos esquecer da responsabilidade que a empresa tem que ter com o seu funcionário. A área de Recursos Humanos deve estar sempre atenta ao bem-estar de seus colaboradores, além de bem preparada para agir em casos de Síndrome de Burnout.

Para as empresas, é interessante manter uma equipe sempre disponível e comunicativa sobre o tema. Muitos funcionários têm receio de falar para o RH que estão com a Burnout por medos de represálias. Entretanto, é essencial esse contato com a equipe de recursos humanos. 

Além de comunicar, também receber os feedbacks dos funcionários sobre o que aquele ambiente pode melhorar e o que o empregado está achando da empresa. Cuidar da saúde mental do profissional é importante tanto para a empresa, quanto para o colaborador.

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Exercícios que aliviam a Síndrome de Burnout

Se exercitar regularmente aumenta a liberação de serotonina, dopamina e endorfina no corpo. Ou seja, os neurotransmissores ligados ao bem-estar, além de reduzir o estresse. Apostar na corrida ao ar livre, corrida na esteira, exercícios aeróbicos como bicicleta e escada são ótimas opções.

A yoga também é indicada para melhorar o bem-estar, assim, a técnica promove o relaxamento e a redução da ansiedade. O vôlei, basquete e atividades em grupo melhoram o Burnout.

Pratique a meditação

A meditação é uma ótima alternativa para tirar um tempo para você. Esse exercício promove a concentração e também o ritmo da respiração. Ou seja, além de ajudar a aliviar a tensão, também melhora a sua rotina no trabalho.

Então, não há um horário específico para a prática da meditação, o importante é separar alguns minutos do dia para exercer a técnica.

Mudança na alimentação melhora a Síndrome de Burnout

Alimentos industrializados colaboram para o aumento dos níveis de estresse. Refeições com muitas calorias aumentam o processo inflamatório do corpo, que pode gerar sintomas depressivos e ansiosos. Dessa forma, o ideal é manter uma alimentação saudável, com frutas, legumes e verduras de forma natural. Além disso, não esqueça de deixar as vitaminas, minerais e gorduras boas em dia. Por fim, a água não pode ser esquecida, pois é parte necessária do processo.

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Fontes: Yuri Busin, psicólogo e doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (CASME); Danielle H. Admoni, psiquiatra na Escola Paulista de Medicina UNIFESP e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria); Adiel Rios, Mestre em Psiquiatria pela UNIFESP, pesquisador no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); e Monica Machado, psicóloga pela USP, fundadora da Clínica Ame.C, pós-graduada em Psicanálise e Saúde Mental pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein.

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