Burnout afetivo: Quando se relacionar leva à exaustão

17 de agosto, 2021

De acordo com o Ministério da Saúde, a Síndrome de Burnout é um distúrbio emocional que apresenta sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico. A principal causa da condição são situações profissionais como excesso de trabalho, funções e rotinas muito desgastantes ou ainda cenários de alta competitividade e responsabilidade. Um estudo revelou que, apenas em 2019, por exemplo, quase 20 mil brasileiros solicitaram afastamento médico por doenças mentais que tiveram origem no trabalho. Mas você já ouviu a expressão Burnout Afetivo (em inglês, Dating Burnout)?

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O que é o Burnout Afetivo

Isso mesmo. Não é somente o campo ocupacional que pode levar a uma fadiga intensa. Isso porque cada vez mais pessoas experimentam os mesmos sinais de cansaço físico, mental e emocional, queda na energia, disposição e produtividade e até mesmo baixa na imunidade, dor de cabeça e crises de ansiedade por conta de frustrações nos relacionamentos amorosos, o que tem sido chamado de Burnout Afetivo.

Patrícia Lenine, psicóloga e sócia-fundadora da empresa de terapia online Zero Barreiras, afirma que, hoje, a durabilidade dos bens materiais e dos relacionamentos é cada vez menor.

“Daí vem o termo relações líquidas, pois o sociólogo Zygmunt Bauman se refere a relacionamentos que escorrem pelos dedos, difíceis de segurar. Seriam experiências pessoais sem a construção da identidade de um casal. Nessa fluidez, a vida de cada um estaria propensa a mudar de uma hora para outra e aquilo que parecia ser duradouro já nem mais existe”, afirma.

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Principais causas do Burnout Afetivo

Para ela, a era digital reforça essa volatilidade, pois é possível se conectar ou se envolver com muitas pessoas diferentes ao mesmo tempo, avaliando quem trará mais satisfação. Por um lado, isso é positivo, pois permite mais confiança na opção. Mas, por outro, desgasta a busca por um relacionamento saudável e de longo prazo. “Além de poder diminuir a tolerância à frustração, pois há uma lista de backups. E quem nunca se frustrou? Não somos perfeitos e cultivar esse ideal de relação perfeita é uma ilusão que alimentamos”, completa.

O universo da tecnologia levanta ainda outra questão, o individualismo. “Nos tornamos mais desconectados de quem está à nossa volta e vai surgindo uma dificuldade de nos relacionar com intimidade. Vamos vivendo relações mais superficiais e supérfluas.”

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Origens do Burnout Afetivo

A psicóloga Silvia Piva Grillo, da Grillo Consultoria, argumenta que esse tipo de estafa foi potencializado pelo uso de aplicativos de namoro “que geram ansiedade generalizada e também prejudicam a autoestima, o que faz com que as pessoas se sintam solitárias e também dependentes”.

Muitos usuários se tornam reféns das funcionalidades dos apps e passam horas seguidas checando perfis de possíveis candidatos, mensurando sua própria popularidade — o que ajuda em sua busca por autoafirmação —, mas correndo o risco de deixar de lado outras tarefas importantes, bem como o autocuidado ou atividades de lazer.

Silvia destaca que o Burnout Afetivo surge a partir da desilusão gerada por experiências mal sucedidas: depois de investir tempo e uma dose de apego emocional em um possível namoro, ele não resulta em nada e se torna, assim, uma história de decepção.

Já Patrícia acrescenta que, atualmente, “temos menos tolerância aos desafetos e, no aborrecimento ou desavença, partimos para a próxima conquista”. Assim, vive-se um ciclo desgastante de busca contínua. “Muitos experimentam essa busca frenética pelo próximo relacionamento perfeito, que nunca vai chegar porque não existe. Ou a busca pelo sexo, numa fuga de se envolver e viver a intimidade”, afirma.

O excesso de paquera virtual pode, então, exponenciar a exaustão. Mas, o mais grave, para a psicóloga, é usar esse recurso como forma de defesa: “vou perdendo lentamente o interesse por uma nova conversa, em conhecer uma nova pessoa, porque já não sinto mais o ‘frisson’”.

Sintomas

Alguns sinais importantes ajudam a identificar quando alguém está sofrendo de Burnout Afetivo:

  • Os relacionamentos parecem dar muito trabalho;
  • Sensação de cansaço ao pensar em interações com outras pessoas;
  • Pouco interesse em socializar;
  • Atividades divertidas passam a ser enfadonhas;
  • Períodos de reclusão ou isolamento;
  • Desistência ao menor sinal de descontentamento;
  • Medo de ser rejeitado.

“O preocupante é que muitas pessoas colocam os relacionamentos amorosos como uma parte central na vida e, quando se sentem exaustas e cansadas, tendem a estender o sentimento para outras áreas. Então, podem começar a se sentir cansadas e desmotivadas em viver, pois se sentem fadadas à solidão”, alerta Patrícia. Isso pode evoluir para quadros depressivos.

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Mas o que fazer?

Por isso, ao notar esses sentimentos, o ideal é fazer uma pausa. “Nada como férias para voltar renovado ao trabalho, não é? Assim também é com a paquera. Fique um pouco mais com você e se permita fazer coisas que goste, como visitar amigos e assistir aquele filme que te enche de lembranças positivas. Cultivar novos hobbies e se permitir descobrir novos talentos pode ser uma aventura também”, indica Patrícia.

Aceitar a realidade é outra recomendação relevante. Ou seja, nada de alimentar ilusões, lembrando que o amor não é um mar de rosas. “Por fim, se estiver difícil, peça ajuda. Um processo psicoterapêutico pode ajudar a entender padrões não saudáveis de relacionamento e o que pode estar atrapalhando para que encontre a sua cara-metade.”

Para evitar ou prevenir uma situação de Burnout Afetivo, algumas dicas podem colaborar. Pratique, por exemplo, o autoamor, priorizando sua relação consigo mesmo. Invista em atividades prazerosas, converse com amigos queridos, mantenha uma rotina de atividades físicas, que ajudam na redução dos sintomas atrelados à síndrome, e procure dedicar alguns minutos diários à meditação, um momento para se conectar com você, seus pensamentos e sentimentos.

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Fontes: Patrícia Lenine, psicóloga e sócia-fundadora da empresa de terapia online Zero Barreiras; e Silvia Piva Grillo, psicóloga da Grillo Consultoria.

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