Por muito tempo, ela esteve presente em grande parte das guloseimas industrializadas – como salgadinhos, biscoitos e afins. A gordura trans tem a missão de dar textura e aumentar o prazo de validade desses alimentos. Teoricamente é uma função importante, certo? Mas não para por aí: esse ingrediente possui zero benefícios para a saúde; na verdade, seu consumo é desaconselhado, mesmo que em mínimas quantidades. Por que será?
De acordo com um relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de cinco bilhões de pessoas ao redor do mundo são expostas diariamente a esse composto, o que aumenta o risco de doenças cardiovasculares e até morte.
Em 2018, a instituição fez um apelo aos governos de todo o globo, pedindo a eliminação total da gordura trans produzida industrialmente até 2023. Desde então, iniciativas e políticas públicas vêm sendo adotadas com o intuito de acabar com a substância nos alimentos. O Brasil é um dos países que está nessa lista.
Mas por que órgãos de saúde são tão contrários ao ingrediente? Confira tudo sobre ele a seguir:
A gordura trans faz parte do time dos lipídios (como as gorduras também são chamadas). Lipídios nada mais são do que moléculas que não se dissolvem em água, formadas por ácidos graxos e álcool.
Como você já deve saber, existem alguns tipos de gorduras, e nem todas são nocivas ao corpo humano — algumas, inclusive, mostram-se essenciais para o funcionamento do organismo: as saturadas, que precisam ser consumidas em quantidades moderadas; as insaturadas, que fazem parte do grupo “do bem”; e a trans.
A gordura trans pode ser encontrada naturalmente em alguns alimentos de origem animal. Contudo, o maior consumo sempre se deu por meio de alimentos industrializados, que têm a substância adicionada artificialmente pela indústria. Ela passou a ser amplamente utilizada nos anos 1950, quando esses produtos começaram a tomar conta das prateleiras dos supermercados.
Para a sua produção, as marcas transformam óleo líquido em gordura sólida, garantindo aos itens alimentícios mais crocância, maior prazo de validade, melhor sabor e baixo custo.
Por muito tempo não se soube dos malefícios da gordura trans por causa de sua origem vegetal, que em teoria deveria ser saudável. Porém, a gordura trans passa por diversos processos químicos para torná-la sólida, que alteram completamente suas moléculas. No rótulo, ela geralmente se apresenta como gordura vegetal hidrogenada, detalhe que pode passar despercebido por muita gente.
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A gordura trans não é essencial ao organismo e não traz nenhuma vantagem para nós — ou seja, conseguiríamos facilmente viver sem ela.
Diversos estudos revelam os malefícios da gordura trans. Um deles, publicado no American Heart Association, avaliou 87 mil mulheres na fase da menopausa que consumiram o ingrediente em quantidades maiores e menores. As voluntárias que ingeriram os maiores níveis tiveram um aumento de 39% no risco relativo de um AVC quando comparadas às que consumiram as menores quantidades.
Além disso, uma pesquisa verificou uma ligação entre a ingestão dessa gordura com o câncer de cólon (câncer de intestino). Já outra mostrou que a substância também aumenta a chance de câncer de mama.
E mais: a gordura trans promove o aumento do LDL, considerado o colesterol ruim, e reduz o HDL, que é o bom. Em outras palavras, eleva as chances de infarto, inflamações generalizadas e aterosclerose.
De acordo com dados oficiais, as doenças do coração são a principal causa de morte e de internação hospitalar no Brasil. No mundo, a gordura trans provoca cerca de 500 mil mortes a cada ano.

As principais fontes foram, por muito tempo, os itens ultraprocessados. Entre os campeões, estão:
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A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, um braço da OMS), fala que um adulto saudável pode reservar apenas 1% da sua ingestão calórica diária para a gordura trans — mas é claro que, quanto menos, melhor!
Isso quer dizer que, se a sua dieta é composta de duas mil calorias por dia, apenas 20 calorias devem ser de gordura trans. Isto é, o equivalente a 2g, ou uma colher de sopa de margarina.
Contudo, o problema é mais complicado do que parece. No Brasil, por exemplo, todas as marcas tem que informar sobre a quantidade de gordura trans em seus produtos. Contudo, se esse valor for igual ou inferior a 0,2g por porção do alimento, ele pode constar como ZERO na tabela nutricional.
E mais: se o número for igual ou menor do que 0,1g por porção, o rótulo pode alegar que ele “não contém gordura trans” ou é “zero gordura trans”, fazendo o consumidor acreditar na informação.
Ainda, o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa ao Consumidor) relata que uma prática comum da indústria é manipular o tamanho das porções de seus itens para que o valor do composto seja declarado como zero.
Atualmente, já está valendo a norma que proíbe a adição de gordura trans nos alimentos produzidos e vendidos no país. Contudo, antes disso, diversos termos eram usados para definir a gordura trans nos rótulos dos alimentos, o que causava muita confusão e levava a pessoa ao erro. Confira:

Em dezembro de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), seguindo o conselho da OMS, aprovou uma série de mudanças a respeito do uso da gordura trans em alimentos industrializados no país.
O órgão decidiu banir a utilização da substância com medidas graduais, que começaram a valer em julho de 2021 e terminaram em janeiro de 2023.
Ou seja, a partir de agora, a gordura trans poderá ser usada somente para fins industriais, e não mais como ingrediente final em receitas para o consumidor. Apenas óleos refinados, fabricados a partir de junho de 2021, ainda podem ser vendidos com o ingrediente, mas só até o fim de seus prazos de validade, de acordo com uma decisão da Anvisa.
Mas agora que as empresas não podem mais adicionar o composto nos seus produtos, eles ficarão mais saudáveis? Quais ingredientes o substituirão?
A população e os especialistas discutem bastante essas questões. Até agora, o cenário não é muito animador, uma vez que as alternativas não parecem nada vantajosas para a saúde e o meio ambiente:
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