Coqueluche: o que você precisa saber sobre o aumento de casos

Saúde
27 de Junho, 2024
Coqueluche: o que você precisa saber sobre o aumento de casos

A coqueluche, infecção respiratória conhecida como tosse comprida, voltou a se destacar no cenário de saúde mundial, apesar da redução significativa na incidência nas últimas décadas. Entre janeiro e março deste ano, a União Europeia apresentou aumento da doença em pelo menos 17 países, com mais de 32 mil casos notificados — a maioria entre crianças menores de um ano de idade. 

No Brasil, os números também são alarmantes, especialmente nas regiões sudeste e sul. Em São Paulo, a Secretaria de Saúde do Estado notificou 139 casos de janeiro até o início de junho — um aumento de 768,7% em comparação ao mesmo período do ano passado. Ao mesmo tempo, no Paraná, o aumento foi de 500%, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

A doença, provocada pela bactéria Bordetella pertussis, pode causar complicações graves e até mesmo o óbito de crianças pequenas, especialmente recém-nascidos, cuja imunidade ainda é bastante frágil. Por isso, autoridades de saúde pública alertam para a importância da vacina como principal meio de prevenção. 

“A coqueluche é uma doença muito grave no primeiro trimestre de vida, então o percentual de crianças que têm a doença e vão a óbito é importante. Nas crianças maiores, ela pode causar quadros que se complicam com pneumonias, lesões pulmonares, etc”, explica José Geraldo Leite Ribeiro, epidemiologista do Fleury Medicina e Saúde. 

O que explica o aumento nos casos? 

A coqueluche tende a se alastrar durante os climas frios e amenos, como no inverno e primavera, uma vez que as pessoas tendem a ficar em locais mais fechados — o que aumenta a possibilidade de transmissão. 

No entanto, outros fatores podem estar envolvidos no aumento significativo da incidência no Brasil e em outros países. De acordo com José Geraldo, o principal deles é a queda na cobertura vacinal, que cria grupos vulneráveis que podem contrair e disseminar a doença.  

“Desde 2016, por exemplo, no Brasil, as coberturas vêm caindo de todas as vacinas, inclusive da coqueluche. Isso nos coloca em risco de um retorno da bactéria, já que ela nunca foi erradicada (eliminada em uma determinada região ou até mesmo globalmente). Ela está entre nós e o seu controle depende da boa cobertura vacinal”, aponta o epidemiologista. 

Entre outros fatores, observados em estudos, é possível destacar as mudanças que ocorrem no genótipo da bactéria, aumento da susceptibilidade entre jovens e adultos e diminuição da imunidade

Como ocorre a transmissão da coqueluche? 

A transmissão da coqueluche acontece através do contato com gotículas eliminadas por tosse, espirro ou fala de uma pessoa infectada. Ela também pode ocorrer por objetos recentemente contaminados com secreções — mas é um método pouco frequente, uma vez que é difícil para o agente causador sobreviver fora do corpo humano. 

O período de incubação da coqueluche pode variar de 7 a 14 dias. Isso significa que, em até uma ou duas semanas, a criança pode apresentar os primeiros sintomas após a infecção pela bactéria. 

“Os pais devem atentar-se principalmente com as crianças na faixa etária abaixo de 3 meses de idade, especialmente as que ainda não receberam a vacina penta ou hexavalente, com crises de tosse, especialmente se acompanhadas de cianose (arroxeamento da pele)”, aponta  Tatiana Mota, pediatra da Clínica Mantelli. 

Quais os sintomas da coqueluche? 

Os sintomas da coqueluche, em um primeiro momento, são leves e semelhantes a um resfriado comum, o que pode dificultar o reconhecimento pelos pais. Eles incluem espirros, corrimento nasal, febre baixa e tosse

Conforme a doença progride, podem ocorrer episódios frequentes de tosse intensa e bastante secreção. Elas duram, em média, 14 dias, mas as flutuações de crises de tosse podem durar 1 mês e meio ou até mais. 

“As manifestações da coqueluche variam um pouco com a idade. No primeiro trimestre de vida, ela provoca um quadro muito grave, com muita secreção respiratória, e a criança acaba tendo pausas respiratórias. É a idade em que ocorrem a maioria dos óbitos por coqueluche”, aponta o epidemiologista José Geraldo. 

Segundo o especialista, devido a tosse intensa, a criança não consegue respirar durante a crise, o que provoca um desconforto intenso, dificuldade de se alimentar e até vômitos. Em alguns casos, ela pode até desmaiar após uma crise de tosse. 

Por fim, no último estágio da infecção, as crises diminuem gradualmente, e podem durar até três semanas. Em alguns casos, embora raros, algumas crianças podem continuar apresentando tosse por muitas semanas ou até meses. 

Leia mais: O que fazer com a tosse que não acaba mais?

Ela também afeta adultos? 

A coqueluche apresenta maior incidência e risco em crianças menores de um ano, mas ela pode se manifestar em qualquer idade — inclusive na vida adulta. No entanto, nessa fase da vida, os sintomas são mais leves e podem ser confundidos com uma gripe ou um resfriado. 

“Nos adultos, ela não provoca uma tosse típica, mas provoca um quadro de tosse muito arrastado, que vai durar um ou dois meses, e que incomoda muito o adulto. Mas, em geral, esse quadro acaba passando sem diagnóstico”, explica José Geraldo.

Mesmo assim, caso os sintomas persistam, é importante procurar atendimento médico, pois você pode transmitir a bactéria para uma criança que não foi vacinada.

Tratamento de coqueluche 

O tratamento da coqueluche é feito a partir do uso de antibióticos, que devem ser instituídos nos primeiros dias de sintomas. Também é importante adotar alguns cuidados, como repouso, maior consumo de líquidos e isolamento respiratório, para evitar expor outras pessoas a gotículas infectadas no ar.  

Normalmente, crianças pequenas infectadas pela coqueluche são hospitalizadas, visto que os sintomas são mais severos e podem causar o óbito. Elas também podem ser mantidas em isolamento respiratório, até que os antibióticos tenham sido administrados por cinco dias. 

Vacina da coqueluche é o principal meio de prevenção

A vacina da coqueluche, chamada de Pentavalente, faz parte do esquema vacinal básico das crianças, aplicada em três doses em bebês de dois, quatro e seis meses. 

No entanto, a imunidade não é permanente. Após 5 a 10 anos da última dose da vacina, em média, a proteção pode ser pouca ou inexistente. Por isso, a partir de um ano de idade, crianças já podem adquirir a dose de reforço, contida na DTP (tríplice bacteriana), dada em três doses. 

Leia mais: Vacinas para crianças: quais são as principais?

O Sistema Único de Saúde (SUS) também oferta uma vacina específica para gestantes e profissionais da saúde que atuam em maternidades ou em unidades de internação neonatal, uma vez que esses atendem recém-nascidos e crianças menores de um ano de idade. 

Outros meios de prevenção

Além da vacinação, as pessoas podem adotar outras medidas no dia a dia para prevenir a coqueluche, como:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabão
  • Cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar
  • Evitar ir a escola ou trabalho quando há sintomas de gripe ou resfriado
  • Manter os ambientes ventilados

Fontes

José Geraldo Leite Ribeiro, epidemiologista do Fleury Medicina e Saúde

Tatiana Mota, pediatra da Clínica Mantelli

Sobre o autor

Susana Targino
Jornalista da Vitat

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