Diabetes distress: a angústia de quem tem diabetes

Saúde
22 de Agosto, 2022
Diabetes distress: a angústia de quem tem diabetes

“No momento que conversei com o endocrinologista e ele me deu o diagnóstico, meu mundo caiu. Comecei a ficar triste, deprimida, sem ânimo pra nada. Parecia que tinha recebido um diagnóstico de morte”, conta Daniela Quinteiro Machado, de 46 anos, que convive há um ano com diabetes tipo 2. O que ela sente pode ser chamado de diabetes distress, um conjunto de sentimentos que acontecem em pessoas com a condição.

Situação parecida, a bióloga Luciana Aguiar, de 42 anos, também sente. Ela, que convive com diabetes tipo 1, precisa aplicar insulina e medir a glicemia várias vezes ao dia. “Sinto angústia de sempre querer estar na meta e não conseguir. Além disso, tenho pânico em ter hipoglicemia (açúcar baixo no sangue)”, conta.

Lidar com uma condição crônica que exige uma série de cuidados diários, além do medo em ter complicações, pode levar a uma sobrecarga emocional. “Sinto frustração constante e a cabeça cheia de preocupações e pânico”, relata Luciana.

Definição do diabetes distress

De acordo com a psiquiatra Mônica Vilela, especialista no assunto aqui no Brasil, o diabetes distress “é um conjunto de sentimentos, reações psicológicas e comportamentais que ocorrem com as pessoas que têm diabetes.”

A condição reflete a carga emocional relacionada à convivência diária com uma condição de saúde, como o diabetes. “Receber o diagnóstico e ter que conviver com o diabetes diariamente e por longo prazo (seja diabetes tipo 1 ou o tipo 2) impacta profundamente a vida da pessoa e família, traz preocupações e sofrimento”, explica a especialista.

Portanto, é comum e esperado que apareçam reações de medo, ansiedade, tristeza, desapontamento, frustração, raiva e esgotamento em diversos momentos.

Diabetes distress x diabetes burnout

Ambos têm semelhanças, mas o burnout já é caracterizado por um profundo esgotamento tanto físico quanto mental. “A pessoa com burnout já está num grau tão grande de sofrimento e desgaste que vai abandonando os cuidados com o diabetes, muitas vezes deixando de tomar a medicação, de realizar as checagens de glicemia, de realizar os comportamentos de autocuidado necessários para o gerenciamento do diabetes”, alerta a profissional.

Leia mais: Afinal, o que é burnout?

Quando é hora de pedir ajuda

A psiquiatra destaca que sempre existirá um certo grau de diabetes distress em quem tem a doença, mas o problema começa quando ele está elevado. “Isso pode interferir na qualidade de vida da pessoa e até mesmo na forma como ela gerencia o diabetes”, destaca.
Por isso, é muito importante, diante de qualquer sintoma, ou de suspeita de sofrimento psicológico, que a pessoa procure ajuda. “Ela deve comentar com sua equipe de saúde, seja o médico, o enfermeiro, o psicólogo ou outro profissional envolvido nos cuidados com o diabetes”, reforça Mônica. “Muitas vezes será necessário o encaminhamento para um profissional de saúde mental especializado em diabetes.”

Como é feito o diagnóstico

Há escalas que foram desenvolvidas por especialistas para medir o grau de diabetes distress. A maioria desses estudos foram desenvolvidos em língua inglesa, mas já algumas versões validadas e adaptadas para o uso na população brasileira. Mônica S. Vilela é a pesquisadora principal e autora da versão brasileira T1DDS (Type 1 Diabetes Distress Scale). Além disso, também já existe no Brasil a versão da escala DDS para pessoas com diabetes tipo 2.

Contudo, ambas as escalas precisam de treinamento e autorização para uso, por isso somente devem ser utilizadas por profissionais e não estão disponíveis ao público. “O diagnóstico somente pode ser feito por profissionais de saúde especializados e capacitados para atender pessoas com diabetes”, destaca a psiquiatra.

Tem cura?

“Sim, mas nós médicos usamos mais o termo controle”, explica a psiquiatra. Além de sessões de terapia com psicólogos, o tratamento pode incluir, em alguns casos, o uso de medicamentos, como quando há o quadro de depressão.

O diabetes distress, assim como outras condições de saúde mental são tratáveis e é possível conviver da melhor forma possível. “As pessoas, com o devido tratamento, entram no que chamamos de remissão, ou seja, quando há o desaparecimento dos sintomas”, conta Mônica.

A glicemia alta pode interferir no diabetes distress?

Sim. De acordo com a especialista, o açúcar elevado no sangue pode causar sintomas como fadiga, mal-estar, alterações no humor e piora do padrão de sono. Assim como o próprio diabetes distress e a depressão podem influenciar negativamente no gerenciamento da condição, levando ao descontrole glicêmico. “É uma via de mão dupla, mas muitos estudos demonstram que a hemoglobina glicada em pessoas com diabetes distress alto e/ou com diagnóstico de depressão é mais elevada.”

Como lidar da melhor forma possível com o diabetes?

Um dos primeiros passos deve ser a aceitação do diagnóstico. A tarefa não é fácil, mas ajuda a conviver com o diabetes de uma forma mais leve. “Chega-se nessa aceitação após um processo de luto, de sofrimento, onde ter apoio dos familiares, amigos, médicos e equipe de saúde é fundamental”, completa a médica.

Além disso, a psiquiatra também lembra que o ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e que, com o tempo, é capaz de encontrar recursos emocionais para gerenciar o diabetes, sem abrir mão de outras áreas da vida. Para ajudar nesse processo, uma boa dose de autoconhecimento ajuda. “Conhecendo as aptidões e também as vulnerabilidades fica mais fácil fazer as adaptações, melhores escolhas e mudanças necessárias para integrar o diabetes na própria vida”, conta. Além disso, ter um tratamento organizado do diabetes contribui e muito para a qualidade de vida de quem tem a condição.

https://www.youtube.com/watch?v=ftIHSprosIo

Uma luz no fim do túnel

Buscar ajuda é sempre o melhor caminho e é o que pretende fazer Luciana. “Eu abafei tudo dentro de mim e sinto que tem muita coisa fora do eixo agora. Por isso, vou começar a terapia”, conta.

Já Daniela, hoje em dia, lida da melhor forma possível com o diabetes e deve isso ao convívio com outras pessoas que têm a condição. “Com o passar dos meses tudo foi mudando: encontrei canais no YouTube e perfis de influenciadores que falavam sobre a condição e vi que não era tão difícil conviver com o diabetes. Me trouxeram leveza no dia a dia.”

Fonte: Mônica S. Vilela da Mota Silveira, médica psiquiatra, professora colaboradora do Departamento de Clínica Médica- Endocrinologia da FCM- Unicamp e fundadora do Instituto de Saúde Mental e Diabetes.

Referências: Tradução e adaptação do “Diabetes Distress Scale – DDS” na cultura brasileira, Translation and cultural adaptation into Brazilian culture of type 1 diabetes distress scale e Diabetes UK.

Sobre o autor

Beatriz Libonati
Jornalista e repórter da Vitat. Especialista em diabetes e obesidade.

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