Destaques do ADA 2022: novidades no tratamento do diabetes

25 de julho, 2022

Em junho, aconteceu um dos eventos mais importantes sobre o diabetes no mundo: o congresso da American Diabetes Association (ADA). Diversos especialistas brasileiros participaram e trouxeram de New Orleans as informações para o Brasil por meio de um evento organizado pela Sociedade Brasileira de Diabetes na última semana. A Vitat acompanhou e trouxe os principais destaques sobre diabetes do ADA 2022 que você não pode perder. Confira!

Destaques do ADA 2022

1) Resistência à insulina e o próprio diabetes são piores em adolescentes?

Dois estudos foram apresentados no evento mostrando que não só a resistência à insulina é mais grave em adolescentes do que em adultos com o mesmo peso, como também o quadro de diabetes tipo 2 pode progredir de forma mais rápida. De acordo com os estudos, mesmo com atividade física regular e mudança do estilo de vida, esses adolescentes, ainda assim, tiveram maior dificuldade para controlar o diabetes do que adultos com o mesmo peso. “Isso preocupa e nos traz o questionamento: será que vão precisar de mais remédios?

E aí vem outro problema. Muitos medicamentos ainda não são aprovados para uso em crianças e adolescentes”, conta Joana Dantas, endocrinologista que apresentou as informações no evento da SBD. Como resultado, 15 anos depois, esses mesmos jovens tiveram maior risco de complicações crônicas. Cerca de 80% apresentaram alguma complicação microvascular, como hipertensão (67%), nefropatia (54%), neuropatia ( 32%) e retinopatia (13%) antes dos 30 anos.

Leia mais: Resistência à insulina é pior em adolescentes? Especialista explica

2) Tempo no alvo é melhor que a hemoglobina glicada?

A hemoglobina glicada é um dos principais parâmetros que os médicos utilizam para checar se o controle da glicemia está bom ou não. O exame, que é feito através do sangue, consegue identificar a média da glicemia nos últimos três meses. Mas, como é uma média, pode mascarar oscilações de glicemia tanto para mais quanto para menos. E foi esse o tema da aula apresentada pela endocrinologista Denise Franco, que abordou a importância do tempo no alvo e se este seria o padrão-ouro no gerenciamento do diabetes.

“O conceito de tempo no alvo é ter a glicemia entre 70 e 180 mg/dL”, explica. E é possível acompanhar esses valores através de sensores de glicemia que medem em tempo real, 24 horas por dia, as taxas de açúcar. Mas, diante disso, vem a pergunta: será que o tempo no alvo é a melhor forma de acompanhar se o paciente está com um bom controle? E a resposta é: talvez ainda precisamos de novas ferramentas.

Nova métrica à vista para medir o controle glicêmico

Denise destacou que mesmo pacientes com boa hemoglobina glicada e tempo no alvo, por exemplo, podem não estar salvos de terem um episódio de hipoglicemia severa, que pode causar sérios riscos de saúde, até mesmo o coma.

E uma das novidades apresentadas no ADA 2022 foi uma nova medida chamada de índice de risco de glicemia (GRI). “Esta nova métrica é uma fórmula matemática que inclui a porcentagem de hiperglicemia e hipoglicemia e uma razão”, conta. O cálculo não é fácil: precisa de uma fórmula específica o que pode dificultar a sua utilização. Entre os especialistas presentes no evento, a notícia é animadora, mas ainda carece de mais estudos.

3) Doença hepática gordurosa não alcoólica: uma emergência mundial

A médica Cynthia Valério trouxe os principais destaques de um assunto que vem ganhando importância nos últimos anos, mas ainda é muito negligenciado: a gordura no fígado. A doença está principalmente presente em quem está acima do peso, mas pessoas magras também podem ter, já que está relacionado não só ao IMC, mas a presença de gordura no corpo e maus hábitos de vida, incluindo o sedentarismo.

A questão é que uma simples gordura no fígado pode não ser tão simples assim. “De acordo com os estudos, 55% dos pacientes vão ter esse diagnóstico da presença da gordura e 40% já com alguma fibrose ou esteato hepatite”, conta.

A doença é séria e pode levar até mesmo a uma cirrose não alcoólica. Sim, a gordura no fígado pode causar fibroses irreversíveis, que podem ser fatais se não tratadas e prevenidas a tempo. Além disso, o próprio diagnóstico de diabetes tipo 2, por si só, já é um fator de risco para a doença.

Diagnóstico precoce é fundamental

Um dos destaques do ADA 2022 foi a publicação de um guideline com orientações de como diagnosticar e acompanhar esses pacientes. “Quem tem os fatores de risco, como obesidade, pré-diabetes e diabetes precisa ser avaliado e estratificado o risco de cirrose”, conta a médica.

Ela destaca que, no futuro bem próximo, a avaliação da doença hepática gordurosa será feita em rotina com os pacientes com diabetes tipo 2, assim como são feitos os exames para avaliar os rins e olhos.

Contudo, além da ultrassonografia e de exames de sangue para checar as enzimas do fígado, novas opções surgem para um acompanhamento mais criterioso do fígado, entre eles a elastografia. “Esse exame é simples: por meio de um aparelho chamado fibroscan é possível prever o risco de fibrose.” Além disso, o exame avalia também o nível de gordura e de rigidez do órgão.

Medicamentos podem ser utilizados para ajudar a reverter a gordura no fígado, mas o principal caminho é a mudança de hábito, com prática de atividade física, alimentação saudável e, em quem é necessário, a perda de peso ajuda e muito a tratar a doença.

4) O coração de quem tem diabetes foi um dos destaques do ADA

Uma das complicações mais subestimadas no diabetes é a insuficiência cardíaca. Assim começou a aula da médica Sylka Rodovalho, que trouxe os principais destaques do ADA 2022 sobre o assunto.

É sabido que quem tem diabetes pode ter diversas complicações de saúde, mas nem sempre o coração recebe a sua devida importância. E foi isso que os especialistas trouxeram à News Orleans: precisamos reconhecer e tratar a insuficiência cardíaca de forma precoce.

Um dos estudos destacou a definição de 4 estágios da doença:

  • A – Neste estágio, a pessoa não tem a doença. Então, o foco é ainda a prevenção.
  • B – É um estágio de pré-doença: não há sintomas ainda, mas o paciente já apresenta algumas alterações estruturais e de biomarcadores no sangue.
  • C e D – Já há o diagnóstico da doença.

Rastreamento deve ser feito anualmente

Neste contexto, os especialistas recomendam a avaliação de biomarcadores com a troponina e o BNP no sangue. “O BNP, por exemplo, foi superior a albuminúria na urina para prever os eventos cardiovasculares”, conta a médica. Atualmente, quem tem diabetes deve realizar a pesquisa de microalbuminúria na urina para identificar se há, mesmo em estágios super precoces alguma complicação renal. E, geralmente, a presença desta complicação pode significar que algo já não vai bem com o coração.

Além disso, o diagnóstico de insuficiência cardíaca deve envolver além dos biomarcadores, a avaliação clínica do paciente e exames de imagem. Infelizmente, pessoas com diabetes possuem maior risco de insuficiência cardíaca, mas com prevenção e tratamento precoce é possível que esses pacientes vivam com mais qualidade de vida. “Essa investigação do coração deve ser feita anualmente, ao menos”, reforça a médica.

Fontes: Joana Dantas, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes – Regional RJ, Denise Franco, médica endocrinologista e membro da SBD, Cynthia Valério, presidente do IEDE e Sylka Rodovalho, presidente da SBD – Regional SP.

Referências: A Glycemia Risk Index (GRI) of Hypoglycemia and Hyperglycemia for Continuous Glucose Monitoring Validated by Clinician Ratings, Heart Failure: An Underappreciated Complication of Diabetes. A Consensus Report of the American Diabetes Association

Sobre o autor

Beatriz Libonati
Jornalista e repórter da Vitat. Especialista em diabetes e obesidade.