Resistência à insulina é pior em adolescentes? Especialista explica

21 de July, 2022

A notícia não é nada animadora. Estudos recentes apontam que a resistência à insulina é pior em adolescentes do que em adultos com o mesmo IMC e que o diabetes tipo 2 pode progredir mais rápido nos jovens. O assunto foi destaque no Highlights do Congresso Americano de Diabetes 2022, realizado pela Sociedade Brasileira de Diabetes. O evento trouxe os principais destaques de um dos mais importantes congressos sobre diabetes no mundo.

Conversamos com a endocrinologista Joana Dantas, que apresentou o painel, para entender mais sobre o assunto. Confira!

Por que a resistência à insulina é pior em adolescentes?

Ainda não se sabe ao certo, mas além da predisposição genética, a resposta pode estar nos hormônios. “A adolescência é o momento onde temos o pico dos hormônios, principalmente do crescimento e os gonadais”, explica Joana. “E isso pode explicar porque a resistência à insulina é pior em adolescentes.”

No entanto, a endocrinologista destaca que os mais de 500 adolescentes de 10 a 17 anos avaliados no estudo publicado pelo The New England Journal of Medicine possuíam não só a predisposição genética à resistência insulínica, como também faziam parte de um ambiente obesogênico, com sobrepeso ou obesidade, sedentarismo e hábitos de vida ruins, incluindo, os alimentares.

Ou seja, um conjunto de fatores pode levar ao quadro de resistência insulínica, que é quando há uma dificuldade de ação do hormônio no organismo. Consequentemente, o pâncreas passa a produzir mais quantidades de insulina para conseguir levar glicose para as células. Este quadro pode evoluir para o desenvolvimento do pré-diabetes e, consequentemente, do diabetes tipo 2.

Apesar da doença ser mais prevalente em adultos a partir dos 45 anos, crianças e jovens também podem desenvolvê-la. “Nos Estados Unidos, por exemplo, houve um aumento expressivo de casos de DM2 em adolescentes. No Brasil, já estamos vendo esse aumento também e isso nos preocupa demais”, destaca. Além disso, o diabetes em adolescentes é mais desafiador de ser controlado. “Isso por conta de ser um período de intensas transformações. Em consultório vejo que a adesão ao tratamento fica muito prejudicada durante a adolescência.”

Leia mais: Afinal, o que é insulina alta?

Resistência à insulina pode cansar pâncreas

Outro estudo2 publicado no Diabetes Care apontou que há uma maior secreção de insulina em adolescentes do que, em comparação, com adultos com o mesmo peso. A consequência? Pode levar a um “cansaço” do pâncreas, que pode esgotar a sua fonte de células beta que produzem insulina. O resultado disso tudo é o diabetes tipo 2, mas não só isso. “Vimos que a terapia com um único medicamento, como a metformina, falhou com menos de um ano”, conta a médica.

De acordo com os estudos, mesmo com atividade física regular e mudança do estilo de vida, esses adolescentes, ainda assim, tiveram maior dificuldade para controlar o diabetes do que adultos com o mesmo peso. “Isso preocupa e nos traz o questionamento: será que vão precisar de mais remédios? E aí vem outro problema. Muitos medicamentos ainda não são aprovados para uso em crianças e adolescentes”, conta a médica.

Com poucas opções terapêuticas e controle da glicemia ruim, complicações de saúde podem surgir como problemas de visão, renais e, principalmente, cardiovasculares.

Complicações de saúde

De acordo com o primeiro estudo, 15 anos depois, esses mesmos jovens tiveram maior risco de complicações crônicas. Cerca de 80% apresentaram alguma complicação microvascular, como hipertensão (67%), nefropatia (54%), neuropatia ( 32%) e retinopatia (13%) antes dos 30 anos.

A médica destaca também que apenas 19% dos pacientes incluídos no estudo conseguiram ficar abaixo de 6,5% da hemoglobina glicada, um importante marcador do controle do diabetes. Além disso, Joana destaca que novos estudos, incluindo os medicamentos mais recentes para tratamento da obesidade e diabetes como a liraglutida e a cirurgia bariátrica que foi aprovada para adolescentes, devem ser realizados. “Precisamos de novos dados com essas novas abordagens para entendermos se o desfecho poderia ser diferente para esses adolescentes.”

Precisamos falar sobre obesidade na infância

De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2021, estima-se que 6,4 milhões de crianças têm excesso de peso e 3,1 milhões já possuem obesidade. Um dos principais fatores de risco que levam ao aparecimento da resistência à insulina e do diabetes é o excesso de peso. No entanto, o assunto, infelizmente, ainda é muito negligenciado na infância e adolescência. “Temos que mudar a visão de que uma criança acima do peso é ‘bonitinha’ e que não há problema, mas na verdade, a conta chega com sérios problemas de saúde”, faz o alerta a médica.

Para prevenir tanto a resistência insulínica como o diabetes, é essencial que os jovens tenham hábitos de vida saudáveis como prática frequente de atividade física e alimentação saudável. “Precisamos cuidar dos jovens para que eles possam ter uma melhor qualidade de vida no futuro e o sistema de saúde não fique sobrecarregado”, conta Joana.

Fonte: Joana Dantas, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes – Regional RJ

Referências: ABESO

1- Long-Term Complications in Youth-Onset Type 2 Diabetes

2- Metabolic Contrasts Between Youth and Adults With Impaired Glucose Tolerance or Recently Diagnosed Type 2 Diabetes: II. Observations Using the Oral Glucose Tolerance Test

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Sobre o autor

Beatriz Libonati
Jornalista e repórter da Vitat. Especialista em diabetes e obesidade.