Amamentação cruzada: prática é comum, mas não recomendada

Gravidez e maternidade Saúde
04 de Janeiro, 2024
Amamentação cruzada: prática é comum, mas não recomendada

Ao menos uma em cada cinco mães brasileiras que amamentaram seus bebês nos últimos anos fez a chamada amamentação cruzada. O ato acontece quando uma mulher amamenta o filho de outra pessoa ou usa o leite de outra mãe para alimentar o seu próprio bebê, de acordo com estudo publicado no Caderno de Saúde Pública.

O hábito é cercado de boas intenções e preocupações da mãe, que entrega o bebê a outro seio materno para amamentá-lo. Contudo, deixar seu bebê mamar em outra mãe é contraindicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por outras entidades, como o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Saiba mais.

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Riscos da amamentação cruzada

De acordo com Carolina Cunha, ginecologista e obstetra da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o principal motivo para evitar a amamentação é o risco de transmissão de doenças. “Estamos falando de infecções contagiosas graves, como hepatite B, C e AIDS”, alerta a médica.

Além delas, há ainda outras enfermidades potencialmente graves para o bebê, como sarampo, caxumba, rubéola, mononucleose e herpes. Afinal, por que a amamentação cruzada é tão perigosa assim? Mesmo que a outra mãe seja uma pessoa confiável, ela pode ter alguma infecção, mas sem ter sintomas. Por isso, não deixe o seu filho se alimentar de outro seio, por mais que o gesto pareça inofensivo.

Também há o risco de passagem de medicamentos, substâncias químicas ou toxinas através do leite que não é da própria mãe. Esse resultado é preocupante do ponto de vista da saúde pública”, complementa a nutricionista Vanessa Figueira, responsável pelo Banco de Leite do Hospital Israelita Albert Einstein.

A especialista explica que é crucial que as mães conheçam seu estado de saúde e façam exames regulares para detectar possíveis infecções. Além disso, elas devem seguir as orientações médicas sobre a amamentação em casos de infecções transmissíveis pelo leite materno. “Por isso, é importante destacar a importância da conscientização sobre as práticas seguras de amamentação e a necessidade de orientação adequada às mães sobre os riscos associados à amamentação cruzada”, completou.

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Amamentação cruzada no Brasil: como funcionou a pesquisa

Para chegar aos resultados, os autores utilizaram os dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI), uma pesquisa populacional de base domiciliar que coletou informações de 14.558 crianças com menos de 5 anos entre fevereiro de 2019 e março de 2020. Os cientistas analisaram os dados de 5.831 mães biológicas que relataram ter amamentado seu filho com menos de dois anos pelo menos uma vez. Essas participantes responderam às perguntas sobre amamentação cruzada, doação e recepção de leite humano nos bancos de leite humano. 

Entre as mães de crianças com menos de dois anos que amamentaram o filho pelo menos uma vez, 21,1% afirmaram que praticaram a amamentação cruzada. Amamentar outra criança foi mais frequente (15,6%) do que permitir que a sua criança fosse amamentada por outra mulher (11,2%). Além disso, entre essas mulheres, somente 4,8% doaram leite humano para um banco de leite humano e 3,6% relataram que seus filhos receberam leite humano doado. 

Na avaliação da nutricionista, esse resultado pode ser influenciado por fatores sociais, culturais e individuais, como a saúde da mulher. “Em algumas culturas, a amamentação cruzada pode ser considerada uma forma de solidariedade e cooperação entre mulheres. Outra questão é que se a mãe estiver enfrentando desafios de saúde que a impeça de amamentar, ela pode estar mais disposta a permitir que outra mulher forneça leite ao seu filho. Além disso, pode haver uma variedade de motivos pessoais que levam uma mãe a escolher amamentar o filho de outra mulher em vez de permitir que sua própria criança seja amamentada por outra pessoa”, ponderou a nutricionista.

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O que fazer se o bebê não consegue mamar?

Carolina Cunha explica que muitas mães entregam seus bebês para mamar em outro seio porque enfrentam dificuldades no processo de amamentação. “Às vezes, há uma crença de que o leite é ‘fraco’, que gera a dúvida se o bebê está recebendo os nutrientes adequados”, comenta. Outra causa para a prática é o próprio desafio de amamentar: o bebê pode ter problemas em realizar a “pega”, o que deixa a mãe aflita em busca de uma solução.

No entanto, se você não pode amamentar, está passando por uma das situações citadas ou acredita que está com algum problema de saúde, é importante falar com seu obstetra e pediatra do pequeno. “Além disso, é fundamental que a gestante receba as devidas orientações antes do nascimento do bebê, nas consultas pré-natal. Nelas, o médico ensina a pega, fala sobre os mitos e possíveis dificuldades da amamentação e de outros assuntos”, recomenda a obstetra. Ela reforça a importância do amparo de obstetras e outros profissionais da saúde à mulher.

Por fim, caso realmente a mãe não tenha condições de amamentar o bebê — e isso ocorre com frequência — é possível recorrer aos bancos de leite. Esse tipo de serviço é extremamente seguro, pois o leite doado por outras mães é tratado contra quaisquer vírus e bactérias. Outra alternativa é se beneficiar de mamadeiras com fórmulas especiais, que atendem às necessidades do bebê. Todavia, saiba que todas as opções precisam de recomendação médica. Não deixe de falar com o pediatra para encontrar a melhor solução para nutrir o seu bebê.

Fonte: Carolina Cunha, médica ginecologista e obstetra da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo; e Agência Einstein.

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