Teste da linguinha: o que é e por que ele divide opinião dos médicos

O teste da linguinha é obrigatório desde 2014, sendo uma das avaliações em que o recém-nascido é submetido ainda na maternidade. De acordo com a fonoaudióloga Daniela Caropreso, especializada em desenvolvimento infantil, o exame é prático e com uma soma de benefícios importantes para a família. 

Ele consiste em uma observação feita por um médico capacitado, nos primeiros dias de vida do recém-nascido, para checar se o freio da sua língua não está mais curto do que o previsto. “Isso faz com que o bebê não consiga (ou tenha dificuldade de) fazer as funções de sugar, engolir, mastigar e consequentemente falar”, completa a especialista. 

Para realizá-lo, não é preciso de nada além da própria mão do profissional que irá manusear o freio lingual ou o uso de uma espátula para a mesma finalidade. O objetivo é perceber se esta membrana que liga a parte inferior da língua ao assoalho da cavidade oral não está restringindo os movimentos orais do pequeno. 

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Os prejuízos causados pelo freio de língua curto

Caso a língua esteja presa, a principal consequência do problema é em relação a amamentação. O freio lingual preso pode ser responsável pela pega incorreta do recém-nascido, acarretando em fissuras mamárias, perda de peso e até mesmo desmame precoce. 

Ainda segundo a odontopediatra Stella Faria Dumke, pós-graduada em ortopedia funcional dos maxilares, a limitação da membrana também pode ocasionar problemas na mastigação, deglutição e na fala conforme o desenvolvimento do bebê. “É uma posição errada da língua que vai prejudicar todo o desenvolvimento craniofacial da criança e causar um desequilíbrio nas funções do sistema estomatognático”, completa a especialista. 

A solução recomendada para o quadro infantil tende a ser a frenectomia lingual, em que “o cirurgião remove o frênulo lingual”, de acordo com o documento que embasa a obrigatoriedade do exame. O procedimento pode ser realizado por pediatras, odontopediatras e fonoaudiólogos.

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Frenectomia lingual: posicionamento das entidades de saúde

De acordo com a proposta do teste da linguinha, a avaliação realizada na maternidade só leva em consideração a anatomofuncional do bebê, isto é, como está a anatomia e a função da língua naquele momento. “Considerando que (o pequeno) demora de 15 a 20 dias para se adaptar às novas condições de vida”, completa o documento.

Dessa forma, o exame de triagem indica a frenectomia lingual em casos severos. Já quando há dúvidas do que deve ser feito, um novo teste é pedido pelo profissional. O especialista checará novamente a parte anatomofuncional do bebê e também avaliará as sucções nutritiva e não nutritiva do recém-nascido após 30 dias de vida. A partir disso, a família receberá o diagnóstico mais preciso do filho.

Mesmo a obrigatoriedade do teste da linguinha sendo uma lei federal, vigente desde 2014, a Sociedade Brasileira de Pediatria posicionou-se contra o decreto e até tentou revogá-lo. A primeira justificativa utilizada é a de não existir um protocolo padrão-ouro para conduzir a avaliação.

“(Além disso), o exame da cavidade oral do recém-nascido e lactente já faz parte do teste físico realizado pelo pediatra, de forma simples e indolor, nas maternidades e nas consultas de puericultura”, alega o documento. Também defendeu-se que a obrigatoriedade da avaliação está ligada com o aumento de frenectomias linguais desnecessárias. Contudo, negou-se o pedido da SBP.

Recentemente, o assunto voltou à tona com a Academia de Medicina da França. A entidade de saúde também emitiu um alerta sobre o número de frenectomias linguais desnecessárias em recém-nascidos e bebês. Eles alegam que a cirurgia pode ser um procedimento de risco (causando infecção) para a população infantil quando não há uma recomendação médica adequada.

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Afinal, qual é a conclusão médica sobre o teste da linguinha?

Conforme defende Ana Jannuzzi, médica com especialização em pediatria, qualquer exame de triagem que levanta a suspeita de um problema exige outros para a confirmação. Além disso, o especialista que está acompanhando o caso precisa estar atento ao quadro clínica do bebê.

“O recém-nascido que tem diagnóstico de anquiloglossia (língua presa), mas amamenta sem qualquer dificuldade, possivelmente não precisa do procedimento. No entanto, pondera-se a cirurgia caso ele tenha alterações clínicas. Por exemplo, desconforto ao mamar, pega incorreta apesar das tentativas de ajustes e dificuldade em ganho de peso”, exemplifica a especialista.

Stella traz o mesmo argumento. “De um ponto de vista ético, qualquer intervenção cirúrgica desnecessária não deve ser realizada, independente de um teste ser obrigatório ou não”, diz.

Assim, a fonoaudióloga Daniela acredita que a saída não seja suspender a obrigatoriedade do teste. Mas divulgá-lo corretamente, esclarecendo seu passo a passo e os prejuízos de não executá-lo. Além de capacitar adequadamente os profissionais que irão coloca-lo em prática.

Fontes: Daniela Caropreso, fonoaudióloga especializada em desenvolvimento infantil, Stella Faria Dumke, odontopediatra com pós-graduada em ortopedia funcional dos maxilares e Ana Jannuzzi, médica com especialização em pediatria.