Eu cansei de ser gordo: jornalista cria perfil para compartilhar emagrecimento

Saúde
19 de Setembro, 2022
Eu cansei de ser gordo: jornalista cria perfil para compartilhar emagrecimento

“Tenha força de vontade”, “Se ame!”, “Coloque-se em primeiro lugar”. São frases que a maioria das pessoas que lida com a obesidade ou sobrepeso já ouviram em algum momento da sua vida. No intuito de ajudar, o que muitas vezes os palpiteiros de plantão esquecem é que a obesidade é uma doença, e que não basta, apenas, ter força de vontade para emagrecer. A jornada é longa e, pensando nisso, o paraense radicado em São Paulo, Jorge Bentes, de 40 anos, criou o perfil “Eu Cansei de ser Gordo”, em 2013. 

Como surgiu o Eu Cansei de Ser Gordo

“Eu fui fazer uma caminhada no parque e ali percebi que não conseguia caminhar. Eu tinha 31 anos. A ficha foi caindo e tomei a decisão de mudar”, conta. A partir daí, o jornalista começou a procurar na internet perfis que abordassem o processo de emagrecimento. “Eu não via nada que falasse sobre o assunto de forma realista e com bom humor. O que tínhamos eram blogueiras fitness falando sobre barriga chapada”, conta. “Criei o Eu Cansei de ser Gordo para levar informação, falando a verdade de como é lidar com a obesidade.”

De lá para cá, ele que nem tinha, na época, conta no Facebook porque não gostava de expor a vida, hoje inspira e informa milhares de pessoas. Só no Facebook, são mais de 160 mil seguidores, no YouTube, mais de 120 mil e no Instagram quase 40 mil pessoas que acompanham as dores e conquistas de quem se propõe a tratar a obesidade. 

Primeiro passo: aceitação

O influenciador, que prefere ser chamado de transformador, já eliminou mais de 80 kg. Mas engana-se que o processo foi fácil. Claro que incluiu uma boa dose de amor próprio, mas foi além disso.  À primeira vista, pode parecer algo simples, mas a aceitação do diagnóstico é complexa. Entender que a obesidade é uma doença crônica, e que requer um tratamento para a vida toda é um processo. “O mais complicado nessa jornada é entender que a obesidade não tem cura, mas tem controle”, conta. “E, por isso, vamos ter momentos de queda, vamos continuar ‘pisando na jaca’. Entender isso, se perdoar e ter forças para voltar é o mais difícil da caminhada.” 

Durante a pandemia, Jorge teve uma recaída: engordou 20 kg, destes já eliminou 15. “Hoje, estou dentro de um percentual de gordura saudável, mas quero emagrecer ainda mais 4, 5 kg.  Mas não estou me cobrando, estou numa fase de controle.” A boa notícia é que com o tempo esses altos e baixos diminuem e a jornada fica mais leve, como ficou para Jorge. “Lá atrás era bem mais difícil, hoje em dia nem tanto. E tá tudo bem, faz parte da trajetória.”

Segundo passo: pedir ajuda é fundamental

Após a aceitação, Jorge buscou ajuda: o primeiro profissional a quem ele recorreu foi a nutricionista e, depois, a endocrinologista. Suas consultas, desafios na alimentação e receitas são compartilhadas quase que diariamente no Eu Cansei de Ser Gordo. “Comecei fazendo reeducação alimentar, e como tinha vergonha de ir para a academia, no primeiro mês, eu ia caminhar no parque”, relembra. 

Um erro muito comum é querer ter resultados rápidos, mas o ideal é iniciar a prática de atividade física de forma gradual. “Fazia caminhadas de 20 minutos, depois fui aumentando para 30, 40… Só depois, enfrentei o medo e o preconceito e fui para a academia”, conta o jornalista que logo no primeiro mês, eliminou 12 kg. 

Dietas malucas e compulsão alimentar

Jorge, que lida com a obesidade desde jovem, já havia tentado muitas vezes emagrecer e, como boa parte das pessoas que têm a doença, também tentou dietas malucas. “Já fiz a da sopa e também uma que era à base de arroz integral e uva. Diziam que era para desintoxicar, eu acreditei e fiz”, relata. 

Outra dificuldade enfrentada por Jorge que trata até hoje foi a compulsão alimentar, que atinge cerca de 30% das pessoas com obesidade. Este dado é interessante, pois revela que a grande maioria não possui o transtorno, que muitas vezes é projetado de forma preconceituosa e estigmatizante em quem tem a doença.  Além disso, a compulsão alimentar não tem cura, mas tem tratamento e pode ser controlada nos pacientes. 

Outra queixa de Jorge e da maioria dos pacientes o atormentou bastante: a fome. “Sentia muita fome, cheguei a chorar por causa disso.” Além da fome emocional, existe a fome real, do próprio corpo:  isso porque a grelina, o hormônio da fome, pode estar elevado em quem tem obesidade. Por fim, a mudança de hábitos tão necessária no tratamento da obesidade é também desafiadora. “Criar um novo hábito, como a atividade física, não é fácil.  Foi difícil, mas hoje não consigo viver sem.” 

Eu Cansei de Ser Gordo: “sucesso do tratamento é a disciplina” 

Para se conquistar algo na vida, seja uma conquista de um diploma, empreender e, trazendo para nossa realidade, emagrecer e eliminar quilos precisa ter disciplina.  “É algo que a gente vence todos os dias.  É acordar e decidir que vai ser daquele jeito que você pensou em se cuidar, se amar, etc”.

Mas e quando falta motivação?

Diante de tantas dificuldades é natural faltar motivação para continuar. Nesses casos, é importante buscar alternativas para cada situação desafiadora. “Eu tento transformar as coisas mais leves. Se eu não aguento mais ir pra academia, vou fazer caminhada na rua. Se não quero mais comer salada, busco comer algo diferente.” 

Além disso, o apoio profissional de um psicólogo ajuda muito a se autoconhecer e buscar novas saídas. “A terapia ajuda muito a buscar saídas e tornar tudo menos maçante e, sim, interessante.” 

E quem já tentou de tudo e não consegue emagrecer? 

Em uma rápida pesquisa em grupos de pacientes ou até mesmo na nossa rede de amigos e familiar podemos encontrar pessoas que já fizeram inúmeras tentativas de emagrecimento, mas sem sucesso. Diante disso, fica a pergunta: o que fazer se as tentativas anteriores falharam?

Além de buscar ajuda médica para realizar exames e investigar a fundo a saúde, é importante olhar para si e se fazer algumas perguntas como Jorge destaca. “Acredito que quem já tentou de tudo, talvez não tenha tentado se ouvir de verdade e parar de se comparar ou tentar acompanhar o caminho de sucesso do outro.”

Não existe receita de bolo: lidar com uma condição crônica de saúde requer paciência e tentar encontrar um caminho que funcione para você. “Além disso, é importante descobrir se você quer realmente emagrecer ou se está tentando fazer isso porque a sociedade, o marido ou algum familiar quer.” Buscar essas respostas e se respeitar é um bom começo. “A pessoa tem que entrar nessa jornada com vontade própria: entender seu tempo, seu momento, qual caminho quer seguir e buscar ajuda correta”. 

Leia também: “Vitat Cuida” é a jornada que vai ajudar você a ficar de bem com seu peso

Sobre o autor

Beatriz Libonati
Jornalista e repórter da Vitat. Especialista em diabetes e obesidade.

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