Crianças nas redes sociais: veja os riscos por trás da trend de mandar irmão calçar sapato para brigar

Ao navegar pelas redes sociais, não é incomum perceber a presença das crianças na internet. No TikTok, por exemplo, elas têm viralizado com uma trend em que irmãos mais velhos pedem para que se vistam rapidamente para ajudarem a bater em uma suposta pessoa que está ameaçando a família. No ímpeto de se fazerem úteis, os pequenos saem correndo para calçarem os sapatos e ficarem prontos para a briga. Inicialmente, os vídeos arrancam boas risadas do público assíduo da plataforma, no entanto, é preciso atenção para os riscos que existem na exposição infantil no mundo cibernético.

Como explica o psiquiatra e psicoterapeuta Wimer Bottura, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, é importante ressaltar que o alerta não está no momento de diversão em si. “Afinal, é necessário a criança brincar com a família, porque é um mecanismo importante para passar valor a elas”, enfatiza o especialista. O problema é levar essa interação íntima para as redes sociais de forma que o pequeno acaba exposto sem consciência do que está verdadeiramente acontecendo.

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Os perigos das crianças na internet, segundo especialistas

De acordo com a advogada Cristina Sleiman, especialista em direito digital, brincadeiras cômicas, publicadas na internet, podem acabar se tornando vexatórias para a criança. Isso, por si só, já é contra o Estatuto da Criança e do Adolescente e pode afetá-la a longo prazo.

Na adolescência, por exemplo, a gravação pode ressurgir e tornar-se munição para situações de bullying. Neste caso, o jovem tende a pedir para que os pais retirem a publicação do ar com o intuito de que as situações constrangedoras deixem de acontecer.

No entanto, segundo o advogado João Francisco Coelho, do programa Criança e Consumo, “uma vez que o vídeo foi publicado na internet, ele vai ser reproduzido indefinidamente e compartilhado. Logo, vai ser muito difícil retirá-lo desse espaço virtual”, completa o especialista.

Judicialmente, Cristina explica que os pais podem pedir pela exclusão do conteúdo nos locais que foram publicados. “E, dependendo do caso, podem ainda requerer indenização por uso indevido da imagem e dano moral”, esclarece a especialista. Só que como a disseminação do conteúdo virtual é bastante rápida, os responsáveis podem não ter conhecimento sobre todos os meios que foram usados para compartilhar as fotos e os vídeos infantis.

Além disso, de acordo com a advogada especialista em direito digital, o judiciário tem abraçado o posicionamento das empresas no quesito de impossibilidade técnica para recolher todo o material publicado.

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Indústrias também se beneficiam da exposição infantil

Fora as situações vexatórias vividas diretamente pelas crianças, outros riscos as cercam diante da publicação da sua imagem nas redes sociais. De acordo com João, a foto ou o vídeo compartilhado na internet tende a trazer uma série de informações sobre o pequeno que vai criar o seu rastro digital.

Assim, a informação publicada não é só vista pela família e amigos, como se pensa. Mas também pela indústria que pode vir a usar essas informações para fins comerciais. Por exemplo, a instituição pode traçar o perfil de interesses da criança e passar a oferecer apenas o que ela teria interesse em consumir.

Além disso, o conteúdo pode conter informações que acabam abrindo espaço para pessoas mal-intencionadas. Durante a gravação, a criança pode estar com uniforme e isso permite que quem está assistindo saiba onde ela estuda ou até mesmo onde mora. Indo mais a fundo, há até mesmo o risco do consumo de fotos e imagens por criminosos envolvidos com pornografia infantil.

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Então, como proteger as crianças nas redes sociais?

Embora seja difícil manter a criança afastada das redes sociais, João reforça que é preciso um esforço para ponderar o tipo de publicação infantil que irá ao ar. O objetivo é que ela seja o mais discreta possível, ou seja, expondo a menor quantidade de informações sobre o pequeno.

Além disso, deve-se levar em consideração o tom da publicação. Portanto, brincadeiras, por mais divertidas que pareçam, não devem ter cunho vexatório e nem incentivar a criança a ter comportamentos negativos. Quem dá mais detalhe sobre o caso é a psiquiatra Danielle H. Admoni, especialista em infância e adolescência.  

“A trend tem a conotação de que a criança pensa que está fazendo algo certo, de ir lá bater em alguém para ajudar a família. Logo, isso pode até mesmo incentivar a violência porque é uma pessoa que ela confia que a está estimulando a fazer isso”, esclarece a psiquiatra.

Portanto, a autovigilância do que a família está produzindo bem como acompanhar de perto o que a criança consome virtualmente são dois trabalhos fundamentais. Assim, a internet pode ser um meio de auxílio para o crescimento infantil e não ao contrário.

Para isso, inclusive, Dr. Wimer explica que é necessário criarmos o efeito vacina em relação as redes sociais. Em outras palavras, deve-se aprender com o incômodo causado pela internet e, a partir disso, estabelecer conversas necessárias sobre o assunto tanto entre os próprios adultos quanto diretamente com as crianças. Dessa forma, cada atitude será carregada de consciência sobre o que pode acontecer a partir dela!

Fontes: Cristina Sleiman, advogada especialista em direito digital; João Francisco Coelho, advogado do programa Criança e Consumo; Dr. Wimer Bottura, psiquiatra e psicoterapeuta, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria; e Dra. Danielle H. Admoni, psiquiatra geral e da infância e adolescência.