Cânceres evitáveis: quais são os principais e como se prevenir

2 de fevereiro, 2022

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o câncer é uma doença que pode ser evitada. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde, 40% dos casos poderiam ser prevenidos evitando fatores de risco. São os chamados cânceres evitáveis.

Entre os tipos de cânceres potencialmente evitáveis estão colo de útero, colorretal, pulmão, pênis e estômago. Quando tratados precocemente, a taxa de cura pode chegar a 90%, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).

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Quais são os tipos de cânceres evitáveis? 

Entre os cânceres evitáveis, conforme já foi falado, estão os cânceres de colo de útero, colorretal, pulmão, pênis e estômago. O câncer de colo de útero é considerado como o mais evitável de todos. Tanto é assim que a OMS traçou a meta para erradicar a doença globalmente até 2030.

Câncer de colo de útero

De acordo com Patrícia Câmara, cirurgiã oncológica e presidente da SBCO (SC), a vacina contra o vírus HPV, principal fator de risco para o câncer de colo de útero, e o exame de Papanicolau são as armas que tornam possíveis conquistar a meta da OMS de erradicação da doença. “Enquanto a vacina contra HPV administrada antes que a pessoa tenha contato com o vírus garante, praticamente, 100% de proteção a essa infecção, o exame de rastreamento de câncer de colo de útero, o Papanicolau, pode diagnosticar lesões precursoras que são tratadas antes que se transformem em câncer”, afirma a médica.

 A equação que parece simples torna-se muito complexa no cenário brasileiro, país que ainda apresenta o câncer de colo de útero como terceira causa de morte entre as mulheres. “A falta de adesão à vacina contra o HPV, disponível nos postos públicos para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, e a dificuldade de acesso ao Papanicolau, principalmente, nas regiões mais pobres do país,  como a Norte e a Nordeste, faz com que o Brasil ainda esteja longe da meta da OMS para 2030”, explica.

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Estudos mostram que a vacina contra HPV também traz benefícios para quem já teve contato com o vírus, diminuindo o risco do aparecimento de lesões. Por esse motivo, o Sistema Único de Saúde (SUS) liberou esse imunizante para pacientes de alto risco com até 45 anos. Nesse grupo estão mulheres imunodeprimidas, com alteração no Papanicolau, transplantadas, entre outras.

Cânceres evitáveis: Colorretal

O câncer colorretal é aquele que pode acometer o intestino grosso, a porção pélvica e o reto. “Em relação a esse tipo de câncer, nosso papel, apesar de sermos cirurgiões, é evitar que o paciente chegue a precisar desse procedimento”, afirma o cirurgião oncológico Bruno Roberto Braga Azevedo,  membro da diretoria da SBCO e titular do Hospital Pilar e do Grupo Oncoclínica.

O especialista explica que o câncer colorretal começa com uma lesão minúscula e não maligna. “O exame de colonoscopia é um procedimento capaz de identificar lesões com potencial de malignidade e removê-las. Portanto, a colonoscopia tem um impacto enorme na prevenção do câncer colorretal”, diz.

O médico recomenda que a colonoscopia seja realizada quando o paciente apresentar sangramento nas fezes. Além disso, também deve ser realizada quando há casos desse tipo de câncer em familiares em idade precoce, o que pode indicar a necessidade de investigar a predisposição genética para a doença. “É um exame que muda a história do paciente, pois pode evitar que ele desenvolva esse tipo de câncer”, afirma.

Câncer de pulmão

A maior parte dos casos de câncer de pulmão, ou seja, 85% deles, está diretamente relacionada ao tabagismo, por isso, integra a lista de cânceres evitáveis. De acordo com Cezar Augusto Galhardo, cirurgião oncológico e presidente da SBCO (MS), se a população mundial deixasse de fumar, oito entre dez casos deixariam de existir.

O médico explica que o tabaco atua diretamente no DNA das células do pulmão, que passam a se multiplicar de maneira desordenada, causando o tumor maligno. Não existe forma segura de consumo de tabaco. Além disso, uma das grandes preocupações hoje em relação aos jovens é o narguilé, os cachimbos d’água árabe utilizados para fumar. O especialista alerta que muitos pensam que porque a fumaça passa primeiro pela água, os malefícios são atenuados. No entanto, essa informação não procede.

Ao contrário, segundo Cézar, uma hora de narguilé equivale ao consumo de 80 a 100 cigarros, com efeitos devastadores para o pulmão. Sobre os cigarros eletrônicos, já há estudos que mostram que também aumentam o risco de câncer de pulmão. Por sinal, o tabagismo aumenta o risco de diversos outros tipos de câncer. Portanto, é preciso parar de fumar e como qualquer outra droga que cria dependência, essa tarefa não é fácil. “Cerca de 60% dos  fumantes que param voltam ao vicio na primeira tentativa”, afirma.

Câncer de pênis

O tema câncer de pênis ainda é tabu na sociedade brasileira, afirma a cirurgiã oncológica, Luana Gomes Alves, membro titular da SBCO e do Serviço de Urologia do Hospital de Câncer Araújo Jorge. “No entanto, esse câncer existe e atinge parte importante dos homens. No Brasil, 2% dos canceres masculinos são de pênis e em alguns estados, como o Maranhão, a casuística é grande”, afirma. A principal forma de prevenção da doença é a boa higiene local, com água e sabão. Em caso de fimose, que dificulta muito a higiene do órgão, a médica recomenda a correção cirúrgica.

Outro fator de risco importante é a infecção por vírus HPV, portanto, vacinar os meninos é essencial na prevenção da doença. “O câncer de pênis basaloide está diretamente relacionado ao HPV e constitui uma doença muito agressiva”, alerta Luana.

Procurar o médico na presença de lesões iniciais no pênis é fundamental para que o tratamento, que é cirúrgico, possa ser realizado com um procedimento menor, evitando sequelas graves. “Infelizmente, na maioria das vezes, o homem demora para procurar o especialista e lesões grandes são tratadas com amputação parcial ou total do pênis. Quanto maior a lesão, mais agressivo o tratamento e menores as chances de cura”, explica.

Câncer de estômago

O cirurgião oncológico Igor Correia de Farias, titular do Departamento de Cirurgia Abdominal do A.C.Camargo Cancer Center e vice-presidente da SBCO na Regional São Paulo, informa que o principal fator de risco para câncer de estomago é a infecção pela H. pylori, uma bactéria que pode se alojar no estômago, prejudicando a barreira protetora e estimulando inflamação. A bactéria pode provocar sintomas como dor e queimação abdominal, além de aumentar o risco para o desenvolvimento de úlceras e câncer.

Segundo o especialista,  de 70% a 80% da população mundial tem infecção crônica pelo H. pilory. “Cerca de 90%  dos infectados são assintomáticos. Assim, devemos tratar e erradicar  o H. pylori na população de alto risco para câncer de estômago, aqueles que apresentam na endoscopia uma biopsia com algum componente carcinogênico, como displasia, metaplasia, gastrite crônica, entre outros”, diz.

O risco para câncer de estômago também aumenta pelo consumo exagerado de sal e alimentos que contém nitrosaminas (embutidos e enlatados). Isso explica por que há maior incidência desse tipo de câncer na Ásia e em países da América latina, como Venezuela, Chile. Bolívia. Além disso, tabagismo e obesidade também aumentam o risco. Para prevenir a doença é importante consumir vegetais, verduras, frutas, cereais e praticar atividade física, dieta saudável.

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Sobre o autor

Fernanda Lima
Jornalista e Subeditora da Vitat. Especialista em saúde