Aneurisma cerebral: o que é a condição sofrida pela atriz Emilia Clarke

18 de julho, 2022

A atriz Emilia Clarke, consagrada por dar vida à rainha Daeneris Targarien na série Game of Thrones, voltou a falar sobre as sequelas dos aneurismas cerebrais que teve em 2011 e 2013. Em entrevista ao Sunday Morning BBC, a artista relembrou as crises de dores de cabeça e vômitos decorrente do aneurisma cerebral, e afirmou que “teve sorte” por sobreviver e não perder a capacidade de falar. No entanto, como efeito colateral, ela afirmou que os exames mostram que ela perdeu uma pequena parte funcional do cérebro, mas que não a impede de viver normalmente.

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Afinal, o que é um aneurisma cerebral e quais são as causas?

O aneurisma cerebral ocorre quando há uma dilatação anormal das artérias que irrigam o cérebro. Como consequência do enfraquecimento das paredes desses vasos, a pressão sanguínea vai deformando as partes mais fragilizadas e menos resistentes. Assim, pode formar uma espécie de bexiga (aneurisma sacular), o que ocorre na maioria dos casos, ou provocar um aumento localizado da circunferência da artéria (aneurisma fusiforme)

Crescendo lenta e progressivamente, os aneurismas podem se romper e gerar hemorragia ou comprimir nervos ou outras partes nobres do cérebro, ocasionando uma série de sintomas. Apesar de a maioria dos casos se manifestar na forma de um único aneurisma, até 20% são aneurismas múltiplos.   

Associado a aspectos genéticos e outros fatores de risco, como o tabagismo e hipertensão arterial, o aneurisma cerebral ocorre mais em mulheres, numa relação de 2 para 1 na comparação com os homens. Dessa forma, estima-se que a doença atinja de 0,9 a 2% da população brasileira, particularmente pessoas na faixa dos 40 a 60 anos. Os episódios de ruptura e sangramento são mais comuns a partir dos 50 anos. 

Trata-se, então, de um problema de saúde grave: 50% das pessoas com aneurisma rompido (roto) morrem e 25% dos sobreviventes ficam com graves sequelas. Apenas 10% ficam livres de danos neurológicos. Uma vez diagnosticado, o aneurisma demanda urgente tratamento especializado. 

Tipos

Existem dois tipos de aneurismas:

  • Aneurisma sacular: É o tipo mais comum. Semelhante a uma bexiga de aniversário, é composto por uma parte mais estreita chamada colo (o “pescoço” da bexiga) e a cúpula (a parte inflada). Em 98% das vezes, as rupturas ocorrem na cúpula. Esse tipo é subdividido em função do tamanho: pequeno, grande e gigante. Quanto maior o aneurisma, maior o risco de rompimento. 
  • Aneurisma fusiforme: Menos frequente, é caracterizado por uma dilatação anormal de um trecho da circunferência da artéria. Seu diferencial é a ausência de colo. 

Sintomas do aneurisma cerebral

A princípio, quando pequeno, o aneurisma pode passar despercebido, por ser assintomático. Contudo, quando cresce, pressiona nervos e outras estruturas cerebrais, provocando sintomas que variam em função do tamanho e da área que comprime. Dessa forma, o principal é a dor de cabeça (cefaleia) intensa e muita vezes súbita, frequentemente descrita como a pior que a pessoa já sentiu na vida.

Muitas vezes, essas dores abruptas são sinal do chamado aneurisma roto, ou seja, o aneurisma que se rompeu, provocando hemorragia (representa mais de 70% dos casos). Em outros pacientes, podem ocorrer dores de cabeça atípicas, que se repetem (cefaleias em sentinela), sinalizando pequenas hemorragias, mesmo que ainda não tenha ocorrido o rompimento total do aneurisma. Elas atingem cerca de 30% dos pacientes e, geralmente, o aneurisma se rompe depois de 3 a 4 semanas. 

Outros sintomas neurológicos associados ao aneurisma

  • Perda ou alteração do nível de consciência. 
  • Rigidez no pescoço, que pode estar associada a inflamações na meninge cerebral provocadas pela hemorragia.
  • Queda da pálpebra, comumente derivada da compressão do terceiro nervo.  
  • Náuseas e vômitos.
  • Visão dupla ou borrada.
  • Acidente vascular cerebral isquêmico por repetição, que pode indicar a presença de um aneurisma de grandes proporções emitindo trombos (coágulos) na circulação que acabam entupindo outros vasos. 

De acordo com especialistas, ao observar qualquer desses sinais, é importante procurar imediatamente um médico especialista. Isso porque pacientes que passam por um primeiro episódio agudo da doença envolvendo sangramentos precisam de tratamento o mais rápido possível. A taxa de ressangramento nas primeiras 24 horas gira em torno de 4%, mas esse índice aumenta 2% ao dia, em progressão geométrica, chegando em 30 dias a um risco de até 60%. Assim, o risco de morte, que é de 50% no primeiro sangramento, sobe para 80% no ressangramento. 

Como diagnosticar o aneurisma cerebral?

A princípio, é importante ressaltar que o diagnóstico precoce é essencial. Assim, uma das melhores formas é por meio de exames de imagem, como a angiorressonância ou angiotomografia, que permitem a visualização dos vasos cerebrais. Além disso, técnicas mais recentes associadas à ressonância permitem saber quais aneurismas apresentam maior risco de ruptura.

Como tratar

O tratamento depende do tamanho, localização, tipo e forma do aneurisma e quadro clínico do paciente. As técnicas adotadas são microcirurgia ou intervenção endovascular (embolização).

Clipagem microcirúrgica

A partir de um pequeno corte no crânio (craniotomia), que hoje não precisa mais da raspagem total de cabelo, o neurocirurgião utiliza um microscópico cirúrgico de alta precisão para então fechar o aneurisma. Em seguida, ele fixa pequenos clipes cirúrgicos de titânio, geralmente na parte mais estreita (o colo), eliminando-o definitivamente. Essa é a chamada técnica de oclusão. Atualmente, algumas microcirurgias ocorrem com o paciente acordado. Para isso, faz-se uso da monitorização intraoperatória, que permite monitorar a função cerebral em tempo real, diminuindo assim o risco de complicações.

A clipagem pode ser feita antes ou depois da ruptura, mas o ideal mesmo é tratar os aneurismas antes de eles se romperem. Quando isso ocorre, os pacientes ficam sujeitos aos efeitos adversos das hemorragias, que são os verdadeiros causadores de mortes e sequelas. No caso de um aneurisma não roto (não rompido), por exemplo, após a cirurgia o paciente está curado, sem necessidade de fazer uso de medicações.

Embolização endovascular

Esse procedimento é feito por meio de um cateter introduzido a partir de uma pequena incisão na virilha e conduzido até os vasos cerebrais onde estão os aneurismas com o auxílio de equipamentos de imagem, que guiam seu caminho pelas artérias (técnica de Seldinger).

De acordo com as características de cada caso, o neurointervencionista implantará, de forma isolada ou combinada, dispositivos para evitar a ruptura do aneurisma ou prevenir ressangramentos. Assim, os materiais mais usados são molas (espirais destacáveis, que são colocadas no interior do “saco” do aneurisma), stents (próteses maleáveis que recobrem a artéria onde está o aneurisma, sendo que alguns também alteram o fluxo sanguíneo dos vasos) e balões usados para remodelar os vasos.

Em casos específicos, quando as intervenções terapêuticas (microcirúrgicas ou endovasculares) apresentam mais riscos do que benefícios ou quando os aneurismas ainda são muito pequenos e não apresentam risco de ruptura, o médico pode recomendar apenas o acompanhamento do paciente e administrar medicamentos específicos para controle da pressão arterial e de sintomas como dores e convulsões.

Fatores de risco do aneurisma cerebral

Os principais fatores de risco são:

  • Predisposição genética para a formação de paredes arteriais cerebrais mais frágeis e susceptíveis a deformações.
  • Pessoas com parentes de até 2º grau com a doença têm risco quatro vezes maior de ter aneurisma roto (com rompimento).
  • Tabagismo (o hábito de fumar favorece a formação de aneurismas e, na existência deles, aumenta em 10 vezes o risco de ruptura).
  • Descontrole da pressão arterial (também influi na formação e no rompimento do aneurisma). É comum que a ruptura esteja associada ao aumento abrupto da pressão arterial, vinculado, por exemplo, a momentos de estresse emocional, atividade física de alto impacto ou atividade sexual.  
  • Idade, pois o risco aumenta com o envelhecimento.
  • Mulheres, sobretudo após a menopausa.
  • Traumas, como batidas e choques.
  • Consumo de álcool e drogas ilícitas.
  • Alterações do nível de colágeno provocadas por outras doenças, como coarctação de aorta e rins policísticos.

Prevenção

Hábitos saudáveis ajudam a prevenir os fatores de risco controláveis. Por isso, confira algumas recomendações dos especialistas: 

  • Atividade física regular e dieta balanceada são importantes para manter a pressão arterial em níveis adequados, além de ajudar a controlar o colesterol e triglicérides.
  • Não fumar e evitar a fumaça do cigarro. 
  • Moderar o consumo de álcool. Ao modificar a coagulação do sangue, o hábito de beber é mais perigoso para as pessoas com aneurisma, por conta do maior risco de hemorragia.
  • Pessoas com aneurismas que não podem ser tratados devem evitar esforços físicos exagerados.
  • Pacientes com aneurisma cerebral não roto devem evitar medicamentos antiagregantes (como a aspirina) e anticoagulantes.

Novidades médicas: aneurisma cerebral

Equipamentos mais modernos

Avanços tecnológicos têm contribuído para aprimorar tanto a clipagem microcirúrgica como a embolização endovascular. Dessa forma, na microcirurgia, o destaque são os equipamentos de suporte cirúrgico, como as novas versões dos neuronavegadores e microscópios cirúrgicos que permitem ao neurocirurgião visualizar os vasos sanguíneos em tempo real e ter certeza da efetividade do procedimento e da cura, sem necessidade de exames pós-operatórios.

Assim, o procedimento é feito com a utilização da indocianina verde, substância fluorescente que torna os vasos mais visíveis. Mais potentes e performantes, os novos aparelhos reconstroem e projetam em 3D as regiões a serem tratadas com níveis de precisão inéditos, o que se traduz em mais segurança e efetividade dos procedimentos.

Microcirurgias para clipagem

Também é novidade no Brasil as microcirurgias para clipagem de aneurismas com o paciente acordado. Até então, os neurocirurgiões podiam se valer da monitorização intraoperatória das atividades dos nervos cerebrais para identificar algumas áreas que poderiam ficar comprometidas. Esse recurso, porém, funciona apenas para as funções que não dependiam do estado de vigília. Com a técnica do paciente acordado, é possível identificar áreas associadas a funções como a fala, ampliando a gama de informações para orientar o neurocirurgião durante o procedimento. Outro recurso que vem sendo empregado é o doppler transoperatório, para a avaliação do fluxo sanguíneo nos vasos cerebrais.

Novos dispositivos na área endovascular

Na área endovascular, avanços vêm sendo registrados com o lançamento de novos dispositivos, como os stents diversores de fluxo. Somam-se, ainda, a constante inovação e o aperfeiçoamento das espirais destacáveis usadas para oclusão (fechamento) dos aneurismas. A melhoria de materiais vem aumentando a efetividade dos procedimentos, o que evita a necessidade de intervenções subsequentes.

Diagnósticos mais assertivos

No campo diagnóstico, merece destaque a técnica que fornece imagens de alta resolução da parede do vaso utilizando a ressonância magnética de alto campo de ultima geração (3 Tesla), permitindo a identificação visual das regiões que apresentam maior risco de ruptura, através da detecção de inflamação na parede do aneurisma. O recurso é fundamental para o acompanhamento dos pacientes e o planejamento das intervenções.

Fonte: Dr. Feres Chaddad e Dra. Christiane Monteiro de Siqueira Campos, especialistas em Neurocirurgia e Neurointervencionismo da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. CRMs: 89.100 e 80.207.

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