Algofobia: medo extremo da dor pode atrapalhar a vida

20 de julho, 2022

As fobias, ou medos compulsivos, fazem parte da complexa teia das emoções humanas, muitas delas pautadas em experiências, traumas passados e até condições genéticas. Dentre elas existe a algofobia (ou agliofobia), que é o medo excessivo de sentir a dor. “Podemos entender tanto o medo da dor física, quanto o medo da dor ou sofrimento emocional. Assim, passa-se a evitar todo e qualquer estado doloroso”, explica a psicóloga Chalise Maris Martin Reges.

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Causas e fatores de risco

Na avaliação de Chalise, é difícil pinçar uma causa específica para algofobia, mas o protagonista do problema pode ser o ambiente onde vivemos, sobretudo no modelo atual de sociedade. “Alguns estudos apontam que a população idosa é mais vulnerável ao distúrbio, mas isso não é uma regra. Afinal, cada vez mais é percebido um medo generalizado em todas as pessoas. Vivemos uma grande influência social cuja dor ou o sofrimento não têm espaço, mesmo que passemos por inúmeras situações estressantes, complexas e difíceis”, opina.

Outro comportamento social perigoso para desencadear esse tipo de transtorno é a positividade tóxica. Ou seja, a necessidade de ser feliz e positivo a todo o momento, cujo extremo leva à negação da dor. “Não falar de uma dor não fará com que ela vá embora. Reconhecer, validar e dar espaço ao sofrimento é uma atitude de saúde. É justamente olhando para o que nos machuca que podemos saber o que fazer e como cuidar daquilo — pelo menos de forma mais consciente com nossos sentimentos”, orienta a profissional.

Sintomas da algofobia

A ansiedade é a principal emoção que precede os sintomas da algofobia. Por exemplo, é comum imaginar situações que envolvem dor antes mesmo de elas acontecerem. Vivenciar um evento no imaginário desperta a ansiedade, que desencadeia o medo paralisante de sentir a dor, seja ela qual for.

Às vezes, o fato que traz a dor à tona se concretiza, mas a pessoa experimenta as emoções em uma proporção muito maior. Como forma de fuga, vem o isolamento do convívio social e afetivo para se proteger da sensação ruim. Dependendo da gravidade, as crises da fobia duram meses e podem causar outros distúrbios emocionais, como a depressão. Afinal, é uma situação incapacitante que faz a pessoa se sentir ameaçada. “A condição afeta muito a qualidade de vida, pois a pessoa sofre pela possibilidade do sofrimento e isso causa uma sobrecarga psíquica importante”, comenta Chalise. Dos sintomas físicos, a algofobia provoca suor, náuseas, tontura e agitação durante o episódio de temor.

Diagnóstico

De acordo com a psicóloga, é fundamental saber distinguir o medo “normal” da dor da algofobia. Principalmente porque o medo da dor é uma forma instintiva de defesa do ser humano. “Por outro lado, a algofobia é diagnosticada por meio de uma avaliação profissional adequada, feita por um psiquiatra ou auxiliada por um psicólogo, a partir da compreensão do nível de prejuízos que esse medo traz à pessoa”, esclarece. “Alguns aspectos são levados em conta nessa diferenciação. Por exemplo, o caráter desproporcional, irracional, incontrolável e persistente por um longo período do medo”, continua.

Tratamento da algofobia

A partir do diagnóstico, os cuidados incluem medicamentos com prescrição do psiquiatra, além de psicoterapia, que auxilia a reconquistar a autonomia do indivíduo. “É essencial que a pessoa, dentro de seu processo de autocuidado, compreenda a função do medo da dor: gatilhos, padrões de comportamentos, estratégias de enfrentamento e demais ferramentas úteis para recuperar a qualidade de vida”, conclui a especialista.

Fonte: Chalise Maris Martin Reges, psicóloga clínica e hospitalar com orientação fenomenológica-existencial; especialização em Psicologia da Saúde e Hospitalar – CRP 06/151189.