Efeitos do zika: vírus afeta quase um terço dos bebês de mães infectadas

Gravidez e maternidade Saúde
02 de Fevereiro, 2023
Efeitos do zika: vírus afeta quase um terço dos bebês de mães infectadas

O zika vírus se espalhou no Brasil entre 2015 e 2016, situação que levou o país a declarar estado de emergência. Como resultado, milhares de bebês nasceram com malformações no sistema nervoso. Passada de mãe para filho, a microcefalia é uma das sequelas mais conhecidas da infecção, que reduz não apenas a qualidade, mas a expectativa de vida. Para estudar os efeitos do zika em mulheres gestantes e seus bebês, um estudo realizou uma das maiores análises sobre o tema.

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Como foi feito o estudo que avaliou os efeitos do zika?

Publicado no The Lancet Regional Health – Americas, o artigo reúne 13 estudos nacionais com dados de 1.548 gestantes. Como resultado da análise robusta, os episódios de microcefalia e as anormalidades neurológicas, oftalmológicas e de neuroimagem, foram encontradas alterações em 31,5% das crianças – ou seja, quase um terço da amostra.

Embora seja um prejuízo à saúde dos pequenos, o achado possibilitará políticas públicas assertivas, melhores cuidados e até novas pesquisas para monitorar e controlar a doença.

Quando os casos de zika e seus efeitos explodiram no Brasil, ainda não existiam muitas respostas para uma ação contra o problema a longo prazo.

“Diante disso, não houve tempo para uma grande articulação nacional e diferentes grupos conduziram estudos independentes”, lembra o epidemiologista Ricardo Arraes de Alencar Ximenes, um dos autores da pesquisa e professor da UFPE.

Essa pulverização, portanto, resultou em amostras menores de pacientes, protocolos com critérios díspares e variabilidade de resultados, que aumentavam as incertezas sobre as descobertas.

“Mas já em 2016 começamos a conversar com esses grupos para harmonizar os protocolos e, a partir daí, consolidar os dados dos diferentes estudos. A ciência brasileira mostrou sua maturidade e capacidade nessa epidemia”, ressalta Ximenes.

Dessas interações, surgiu o Consórcio Brasileiro de Coortes do Zika, que hoje conta com cientistas de 26 instituições. “O grande valor do artigo, o primeiro do consórcio, é a união de forças, que permite chegar a resultados mais confiáveis”, destaca o especialista.

Sistematização do conhecimento

Para serem incluídos na meta-análise, os estudos deveriam ter confirmado o diagnóstico de infecção por zika em mulheres grávidas por meio de exames de RT-PCR, antes de qualquer anormalidade ser detectada no feto. Eles também precisavam acompanhar as mulheres até o fim da gestação, exclusivamente no Brasil.

Assim, as pesquisas contemplaram as quatro regiões mais afetadas pela epidemia – Nordeste, Norte, Centro-Oeste e Sudeste. Os dados de cada participante receberam análise individual, sob uma série de possíveis efeitos provocados pelo zika nas crianças.

Eles iam de baixo peso ao nascer até microcefalia, passando por questões oftalmológicas e neurológicas — convulsões, por exemplo.

Microcefalia é apenas um dos efeitos do zika congênito

Ximenes salienta que, como a epidemia de zika foi detectada pelo aumento de casos de microcefalia, parte da população ainda acredita que essa é a única anormalidade ligada à infecção. Contudo, ele reitera que a síndrome congênita ligada ao vírus pode se manifestar de diferentes formas, que incluem dificuldades de visão e déficits motores, entre outras.

É possível, por exemplo, que uma anormalidade no cérebro fosse assintomática, ou provocasse apenas sintomas leves. “Independentemente disso, um terço de crianças afetadas é um dado muito impactante, que mostra o potencial do zika”, complementa.

Além disso, Ximenes argumenta que mesmo manifestações menores podem, com o passar dos anos, desencadear problemas.

A microcefalia

De acordo com a meta-análise, 2,6% dos filhos de mães infectadas apresentaram microcefalia logo na primeira avaliação médica. Em contrapartida, outras crianças receberam o mesmo diagnóstico com o passar do tempo – no total, 4% manifestaram o quadro ao longo dos primeiros anos de vida.

“Nossos resultados indicam que, entre crianças com microcefalia, a fração de diagnóstico tardio não é negligenciável”, dizem os autores no artigo. “O risco de microcefalia pós-natal associada ao zika não havia sido documentado antes. Isso demonstra a relevância de monitorar o crescimento da cabeça de todas as crianças expostas ao vírus antes do nascimento, mesmo as com uma circunferência normal de crânio”, arrematam.

Aliás, crianças com microcefalia pelo zika tendem a apresentar diferentes disfunções simultaneamente. “Então, isso levou pessoas a acreditarem que a síndrome congênita ligada ao zika é caracterizada, via de regra, por uma série de problemas”, diz Ximenes. “Mas isso, na verdade, não ocorre na maioria dos casos.”

Segundo a meta-análise, menos de 1% das crianças afetadas pela infecção da mãe exibiam mais de uma anormalidade. “Ou seja, verificamos que as manifestações costumam surgir de forma isolada”, reitera o epidemiologista.

A descoberta serve como alerta inclusive para profissionais, que às vezes podem não relacionar um quadro ao zika – ou mesmo deixá-lo passar – por se tratar de um sintoma isolado. “E o diagnóstico precoce da síndrome possibilita intervenções precoces, que beneficiam os pacientes”, afirma Ximenes.

 Fonte: Agência FAPESP.

 

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