Razões para fazer um check-up oftalmológico pós-Covid

21 de julho, 2021

Desde o surgimento da pandemia, os cientistas vêm estudando as sequelas da Covid-19. Perdas de olfato e de paladar são exemplos já bem conhecidos — e comuns na população. Mas os pesquisadores também descobriram que tanto o vírus quanto os tratamentos existentes para combatê-lo podem afetar a visão. Por isso, é importante realizar um check-up oftalmológico após a recuperação da doença.

Um estudo publicado no periódico Radiology, da Sociedade Radiológica da América do Norte, encontrou uma relação entre casos graves da Covid-19 e anomalias nos olhos.

Segundo o oftalmologista Francisco Porfírio, as consequências da doença na saúde das pessoas ainda não estão completamente esclarecidas em nenhum lugar do mundo. 

“Somente uma investigação, por meio de exames e acompanhamento médico, é capaz de identificar as sequelas, perceptíveis ou não, especialmente na área dos olhos”, afirma o médico.

Motivos para fazer um check-up oftalmológico após a Covid

Lesões na retina

A Covid-19 é capaz de lesionar a retina (responsável por captar a luminosidade do ambiente e enviá-la ao cérebro, gerando a visão) e a úvea (conjunto de estruturas que formam a íris). É o que diz um um outro artigo escrito por oftalmologistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e publicado na revista científica The Lancet.  

Assim, doenças na retina podem ser graves. Se não receber o tratamento adequado a tempo, o paciente pode perder a visão de maneira irreversível. Portanto, em qualquer sinal de lesão, busque realizar urgentemente um check-up oftalmológico.

Fungo Negro

O fungo negro é uma infecção causada pela exposição a um tipo de mofo comum. Geralmente, a taxa de mortalidade é de 50% e atinge principalmente pacientes diabéticos ou imunossuprimidos.

Dessa forma, especialistas suspeitam que o fungo negro pode ser desencadeado nos pacientes pelo uso de esteroides durante o tratamento da Covid-19. Essas substâncias acabam reduzindo a imunidade e aumentando os níveis de açúcar no sangue. Entre os sintomas estão nariz entupido e sangramento, inchaço e dor nos olhos, pálpebras caídas, manchas pretas na pele ao redor do nariz, visão turva, e, por fim, perda de visão.

“O tratamento é feito com injeção intravenosa antifúngica, mas se realizado tardiamente, é preciso remover cirurgicamente o olho para impedir que a infecção alcance o cérebro” ressalta o oftalmologista.

Catarata

Em função da toxidade do corticoide, medicamento utilizado em alguns tratamentos para a Covid-19, pode ocorrer a opacidade do cristalino, lente interna do olho, resultando em catarata.

“O único tratamento é cirúrgico, onde o cristalino opaco é substituído com a implantação de uma lente intraocular transparente”, explica Francisco Porfírio, que já realizou quase 40 mil cirurgias de catarata.

Retinopatia Diabética

O aumento da glicemia e a formação de trombos, ambos induzidos pela Covid-19 e pela medicação que combate a doença, podem piorar uma possível retinopatia diabética preexistente. A doença afeta os pequenos vasos da retina e não apresenta sintomas nos estágios iniciais.

“O tratamento é definido em razão do estágio da doença e, geralmente, tem por objetivo retardar a sua progressão, pois a parte da visão perdida não tem como ser recuperada. São recomendadas injeções intra-vítreas de antiangiogênicos (dentro do olho), procedimentos com laser ou cirurgia de vitrectomia”, esclarece o médico.

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Um check-up oftalmológico pode diagnosticar a conjuntivite

Estudos realizados na China, na Itália e nos Estados Unidos apontam que a conjuntivite viral também pode ser um sintoma raro do coronavírus. Ela costuma aparecer em casos mais graves da doença, variando de 1 a 3% dos infectados. Dessa maneira, apesar de gerar grande incômodo, dor e inflamação da conjuntiva do olho, geralmente a condição desaparece sozinha sem deixar sequelas.

Ainda assim, é importante fazer um check-up oftalmológico. Para diminuir os sintomas e o desconforto, pode-se utilizar soro fisiológico gelado e compressas sobre as pálpebras, limpar os olhos com frequência, ou então usar lágrimas artificiais e colírios lubrificantes receitados por um especialista.

Fonte: Francisco Porfírio oftalmologista, especialista em cirurgia de catarata e refrativa e presidente da Sociedade Brasiliense de Oftalmologia (SBrO)

Sobre o autor

Julia Moraes
Julia Moraes
Estagiária de Jornalismo