Lactação induzida permite que quem não engravidou também amamente

Gravidez e maternidade Saúde
18 de Agosto, 2023
Lactação induzida permite que quem não engravidou também amamente

Logo após o seu casamento, em 2017, a escritora Marcela Tiboni, 41 anos, e sua esposa, a consultora imobiliária Melanie Graille, 34, começaram o processo de fertilização in vitro. Já na primeira tentativa, que aconteceu em janeiro de 2018, tiveram sucesso. Eram gêmeos: um menino e uma menina. “Como trabalhamos de maneira autônoma e não teríamos direito à licença maternidade, pensamos na possibilidade de as duas amamentarem, o que nos daria mais liberdade e nos deixaria mais sossegadas se uma das duas tivesse algum compromisso fora de casa”, conta Tiboni. Entenda, agora, sobre a lactação induzida.

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Lactação induzida: como foi o processo?

Depois de pesquisarem sobre a lactação induzida na internet, o casal encontrou a consultora internacional de lactação, Kely Carvalho. Ela conhecia um protocolo para ajudar quem não gestou a produzir leite. “Ela conhecia o protocolo, mas ainda não tinha utilizado. Por isso, queria saber se a gente aceitava ser a primeira experiência e topamos”, recorda a mãe de Bernardo e Iolanda, que atualmente têm 4 anos.

De acordo com as mamães, o protocolo de medicação e extração de leite começou em junho. Em setembro, já começou a ter as primeiras gotas de leite. Quando os bebês nasceram, em outubro, ela estava produzindo uma quantidade grande. Assim, os pequenos foram nutridos pelas duas desde a sala de parto. Elas seguiram com a amamentação dos filhos até os dois anos de idade, conforme preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Afinal, como funciona?

A lactação induzida é uma opção para todos os casos em que a pessoa quer amamentar, mas não consegue fazê-lo naturalmente porque não passou pela gestação ou já deu à luz há algum tempo. “Isso inclui os casos de adoção, de casais homoafetivos nos quais a mãe que não passou pela gravidez também quer participar do aleitamento. Além disso, casos de mulheres trans e travestis, e mães que querem reintroduzir a amamentação. Só não é indicado para homens cis, pois seria necessário realizarmos um bloqueio da testosterona, o que é antiético”, diz a ginecologista e obstetra Ana Thais Vargas.

Casos de sucesso

A influenciadora digital Erika Fernandes, de 29 anos, também conseguiu amamentar o filho Noah, que hoje está com um ano. Ela é uma mulher trans que sempre quis ter um filho. No entanto, sabia das suas dificuldades, já que passou por uma transição. Ela se casou com um homem trans e, depois de muita conversa, ele decidiu encarar a gestação.

“Durante esse período comecei a me questionar sobre como amamentar meu bebê, já que o pai fez mastectomia [retirada das mamas], processo que afeta os ductos de lactação”, conta a influenciadora. Ela começou a pesquisar sobre mulheres trans que amamentam e achou poucas informações.

Algum tempo depois, ela conheceu a equipe da Lumos Cultural, que mostrou que esse era um sonho possível. Elas começaram o tratamento com o uso de hormônios e estimulação, simulando uma gestação em seu corpo cerca de 3 a 4 meses antes do parto. Para sua surpresa, após 20 dias, ela já começou a dar sinais de lactação.

“As especialistas disseram que meu desejo de amamentar era tão grande que ajudou a levar meu cérebro a estimular esse processo de indução. Por isso, liberei bastante ocitocina, um dos hormônios que ajudam na produção de leite. Perto do parto eu já estava jorrando o líquido. Então, pude alimentar o Noah por três meses”, lembra.

Como é o protocolo para produção de leite?

Kelly Carvalho, consultora de lactação, explica que existem vários protocolos para esse processo na literatura, mas o mais comum é um de origem canadense. “Ele envolve o uso de hormônios, como o estrogênio e a progesterona. Além disso, medicamentos fitoterápicos galactagogo, que não são fabricados para esse fim, mas que têm como efeito colateral a produção de leite. Também, é claro, uma bomba de sucção que estimula mecanicamente os seios e, assim, a produção de prolactina, hormônio que estimula a fabricação do líquido”, explica a especialista.

Carvalho aconselha que esse processo ocorra antecipadamente. Ou seja, pelo menos seis meses antes de o bebê nascer. “Até as oito semanas de vida, a criança tem mais chance de pegar o peito, pois tem uma função reflexa de sucção”, explica a consultora de amamentação.

Quando não dá para precisar quando esse bebê vai chegar, no caso das mães via adoção, é possível estimular essa mama. Porém, é mais difícil essa mãe conseguir amamentar exclusivamente, pois esse bebê já pode ter alguns meses de vida e estar usando bicos artificiais, como mamadeira e chupeta, que podem dificultar a aceitação do peito.

Em alguns casos, diz a especialista, há a necessidade de fazer a translactação. Nesse caso, uma sonda com fórmula infantil é colocada na boca do bebê junto ao peito da mulher para que ele estimule essa mama e ela produza o leite.

Existem riscos na lactação induzida?

Todo esse processo não oferece nenhum ônus à saúde da mãe ou do bebê. Porém, para que ela possa se submeter a ele, é preciso passar por uma criteriosa avaliação de saúde e acompanhamento médico. “Hoje temos mais de 150 pacientes. Vemos que os riscos que eles podem enfrentar são os mesmos que qualquer mãe que amamenta, como mastite, fissuras, pouca produção de leite e ingurgitamento, quando a produção é exagerada”, diz a médica.

“E, assim como acontece com todo mundo, além de trabalhar na produção do líquido, eles também terão que passar pela adaptação para que o bebê aprenda a fazer a pega e sugar os mamilos adequadamente”, complementa Carvalho.

Fonte: Agência Einstein.

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