Estudo associa cirurgia de catarata à redução no risco de demência

17 de maio, 2022

Os benefícios da cirurgia de catarata foram associados a um risco quase 30% menor de demência em adultos mais velhos, mostrou um estudo conduzido pelo departamento de oftalmologia da Universidade de Washington, em Seattle, nos Estados Unidos. Publicado em dezembro na revista científica JAMA Internal Medicine, o estudo, feito com mais de 3.000 pacientes demonstrou que a extração da catarata (caracterizada pela opacificação do cristalino, a lente natural do olho, levando à visão embaçada) foi associada a um risco significativamente reduzido de demência em comparação com pessoas que não fizeram cirurgia.

De acordo com os pesquisadores, a diminuição do risco persistiu por, pelo menos, uma década após a intervenção cirúrgica. A conclusão foi que a perda sensorial não tratada (neste caso, um comprometimento da visão) é fator de risco para demência. Mas que pode ser modificado, dada a ampla disponibilidade da cirurgia nos centros de saúde pelo mundo. A demência é uma condição com poucas medidas preventivas. Entretanto, sabe-se que ela se beneficia de condutas relativas ao estilo de vida do paciente, como alimentação e exercícios físicos.

Benefícios da cirurgia de catarata: Estudo

Primeiramente, os pesquisadores acompanharam 3.038 pessoas diagnosticadas com catarata ou glaucoma. Elas estavam livres de demência (Doença de Alzheimer e outros tipos) e não fizeram cirurgia de catarata antes de se inscreverem no estudo. A média de idade do grupo foi de 74,4 anos, sendo 59% dos participantes do sexo feminino. Os pesquisadores coletaram dados de 1994 a setembro de 2018.

Além disso, os pacientes passaram por avaliações a cada dois anos através de um teste chamado Cognitive Abilities Screening Instrument (CASI). As pontuações variavam de 0 a 100. Dos participantes, 1.382 (45%) realizaram a cirurgia de catarata durante o estudo. O seguimento médio foi de 7,8 anos. Do total de pesquisados, 853 pessoas desenvolveram demência, principalmente a Doença de Alzheimer, com 709 casos reportados. Em contraste com a cirurgia de catarata, os pesquisadores relataram não ter encontrado menor risco de demência entre aqueles que fizeram cirurgia de glaucoma.

A intervenção da catarata mostrou ter uma ligação maior à redução do risco de demência durante os primeiros cinco anos após a cirurgia em comparação com anos posteriores. Para se ter uma ideia da relevância da descoberta, entre várias variáveis pesquisadas, incluindo nível de instrução, raça, histórico de tabagismo e sexo, a única covariável mais protetora para demência do que a cirurgia de catarata foi a inexistência, no código genético do paciente, do alelo APOE4 – o fator de risco genético mais estudado para a Doença de Alzheimer.

Possíveis justificativas

“Um possível mecanismo pelo qual a cirurgia de catarata pode diminuir o risco de demência ou doença de Alzheimer está relacionado a uma entrada de maior quantidade e qualidade de luz na retina após a remoção da catarata. Fator que ajuda a melhorar a função visual. Os pesquisadores ainda associaram as células ganglionares da retina (ipRGCs), extremamente sensíveis à luz azul, com a função cognitiva e o ritmo circadiano, que é responsável pelo sono.

“A conexão entre as células ganglionares, o nervo óptico e a sua projeção em múltiplas áreas do cérebro sofre um estímulo com a melhora da qualidade do estímulo luminoso que chega à retina após a cirurgia de catarata”, comenta o médico oftalmologista Osny Sedano, do Hospital de Olhos do Paraná e cuja área de atuação abrange cirurgias refrativas e cirurgias de catarata.

De acordo com o texto do estudo, realmente a catarata faz com que a lente do olho acometido desenvolva uma tonalidade amarelada. Dessa forma, ela bloqueia a luz azul. E algumas células presentes na retina são altamente sensíveis aos estímulos da luz azul e conhecidas por regular os ciclos circadianos. Com o bloqueio secundário à catarata e a consequente perda da sensibilidade ao estímulo da luz, o ciclo circadiano fica comprometido. Isso aumenta substancialmente o risco do desenvolvimento de demência. A cirurgia de catarata poderia permitir, então, a reativação dessas células, devolvendo um fator de proteção a mais contra o declínio cognitivo.

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Fator social também é considerado

Os pesquisadores demonstraram, no estudo, estatisticamente um risco menor de os indivíduos desenvolverem a demência no grupo de idosos (65 anos ou mais) que fizeram cirurgia de catarata em relação ao grupo que não foi submetido à extração da catarata. Comparando-se o tempo de estudo, raça, tabagismo, sexo, idade e genotipo E da Apolipoproteína – importante fator no desenvolvimento da Doença de Alzheimer.

“Talvez esse achado esteja relacionado ao aumento do risco de demência vinculado ao isolamento social e à redução do estímulo cognitivo causados pela falta da acuidade visual secundária à catarata. A dificuldade visual poderia levar a dificuldades psicossociais, exclusão das interações sociais e redução de atividades esportivas. Assim, poderia estar associada, também, ao declínio cognitivo”, continua Sedano. Sabe-se que pessoas com visão melhorada se envolvem mais plenamente com o mundo. Além disso, também é conhecido o efeito protetor de uma vida mais ativa contra o desenvolvimento de demência, outros benefícios da cirurgia de catarata.

De acordo com o especialista, há outros estudos que demonstram alterações estruturais do córtex visual em pacientes com perda visual. “Em pacientes com degeneração macular relacionada à idade, os pesquisadores associaram a baixa visão a uma atrofia do córtex visual em um acompanhamento de cinco anos. Em contrapartida, detectaram um aumento da substância cinzenta encefálica após a cirurgia de catarata”, finaliza.

Fonte: Agência Einstein