Anti-inflamatórios comuns na infância podem causar alterações no esmalte dentário

Saúde
30 de Novembro, 2022
Anti-inflamatórios comuns na infância podem causar alterações no esmalte dentário

Um novo estudo revela que medicamentos anti-inflamatórios de uso comum na infância podem estar ligados a defeitos de desenvolvimento do esmalte dentário. Feito pela Universidade de São Paulo (USP) e divulgado na revista Scientific Reports, a pesquisa indica que, atualmente, tal condição atingem aproximadamente uma em cada cinco crianças no mundo. Entenda mais sobre o estudo.

Leia mais: Afinal, como escovar os dentes corretamente?

Estudo sobre anti-inflamatórios comuns na infância

Os autores do estudo ligaram os efeitos de drogas como o celecoxibe e indometacina, que pertencem à classe dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e representam – ao lado do paracetamol – o primeiro degrau da escada analgésica da dor da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Nos últimos anos, os dentistas da Clínica do Esmalte Dentário da FORP-USP pesquisam e lidam diariamente com o problema. Assim, eles relatam um aumento considerável no número de crianças atendidas com dor, manchas brancas ou amarelas e sensibilidade e fragilidade dos dentes. Como consequência, alguns, inclusive, acabam fraturados pela força da mastigação. Ou seja, sintomas clássicos dos defeitos de desenvolvimento do esmalte dentário do tipo hipomineralização, cuja causa central não se sabe a origem.

Além disso, outra consequência são as lesões de cáries. Elas aparecem mais rapidamente e com maior frequência nesses pacientes e suas restaurações apresentam menor adesão e mais falhas. Dessa forma, estudos indicam que essas pessoas chegam a trocar dez vezes mais as restaurações ao longo da vida.

Idade dos pacientes

Uma coincidência despertou a curiosidade dos pesquisadores para se aprofundar no tema: a idade dos pacientes. Isso porque nos primeiros anos de vida, quando os defeitos no esmalte se formam, coincidem com a época em que doenças são mais frequentes, muitas vezes com febres altas.

“Essas doenças geralmente são tratadas com anti-inflamatórios não esteroidais. Eles atuam inibindo a atividade das enzimas cicloxigenases (COXs) e a produção da enzima prostaglandina, cujos níveis se apresentam aumentados”, diz Francisco de Paula-Silva, professor do Departamento de Clínica Infantil da FORP-USP e orientador do estudo.

“Entretanto, sabemos que as cicloxigenases e a prostaglandina são fisiológicas para o esmalte dentário. Assim, nos levou a questionar se esses medicamentos não estariam interferindo no curso da formação normal dessa estrutura.”

O estudo utilizou ratos para estudar o problema. Isso porque os animais possuem incisivos com crescimento contínuo, o que facilita a análise. Durante 28 dias, eles utilizaram o celecoxibe e indometacina.

Após esse período, praticamente não houve diferenças visíveis a olho nu nos dentes dos animais. No entanto, quando os pesquisadores iniciam as extrações, chamou atenção o fato de que os dentes quebravam com maior facilidade. Análises por método de imagem e de composição química indicaram impacto na mineralização dos dentes, que continham menos cálcio e fosfato. Eles são importantes para a formação do esmalte dentário, e sua densidade mineral era menor.

O passo seguinte foi investigar os motivos para isso. Os cientistas constataram que proteínas importantes para mineralização e sinalização para diferenciação celular se apresentavam alteradas. Ou seja, o tratamento com os medicamentos impactava, de alguma forma, a composição do esmalte dentário.

Próximos passos

“Neste momento, o estudo nos oferece um norte para entender um novo ator que pode estar envolvido nos defeitos de desenvolvimento do esmalte dentário, já que até então caminhávamos às cegas”, diz Paula-Silva. “Só conseguimos chegar a esses importantes achados graças aos esforços da Clínica do Esmalte Dentário da FORP-USP e de uma colaboração com a professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto Lúcia Helena Faccioli, fundamental para a compreensão do papel dos mediadores lipídicos relacionados a doenças inflamatórias que afetam os dentes.”

Com base nos resultados observados no modelo animal, os pesquisadores pretendem dar início a um novo estudo para confirmar os achados na clínica. “Vamos resgatar a história das crianças com defeitos e seu uso dos medicamentos e correlacionar, em um estudo clínico, esses dois dados para verificarmos se isso também ocorre em humanos. Assim, poderemos estabelecer o que deve ou não ser consumido e criar, no futuro, um protocolo de tratamento adequado”, explica Paula-Silva, que compara a situação com o caso do antibiótico tetraciclina, não recomendado a crianças por causar manchas e escurecimento dos dentes.

De acordo com o professor, outro ponto importante a ser tratado é o acesso e o uso indiscriminado de medicamentos de venda livre, que parece ter se tornado cada vez mais comum como decorrência do aumento do cuidado pediátrico, embora ainda não haja dados concretos sobre o tema.

Fonte: Agência FAPESP.

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