Durante o primeiro ano de vida, um bebê passa a maior parte do tempo dormindo. O sono é fundamental para o nosso funcionamento. De acordo com estudos multidisciplinares do Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, de Ohio, Estados Unidos, é nesse período que acontece a maturação do sistema nervoso central (SNC).
Contudo, a forma como adormecemos é moldada pelos comportamentos e hábitos adquiridos. “O momento de dormir é o mais vulnerável do dia do bebê. Para que ele se desligue é necessário sentir-se seguro emocionalmente e não abandonado”, explica a neurocientista especialista em sono infantil, Jéssica Africano.
Para ajudar outras mães, a neurocientista foca na necessidade de desenvolver um vínculo seguro entre pais e filhos, na construção de uma rotina previsível e um sono noturno contínuo.
Quando o bebê nasce, traz memórias de quando estava dentro do útero materno. Por isso, precisará de ajuda nessa transição para o mundo exterior de acordo com suas necessidades. “Imagine uma criança na fase de aprender a andar. Nos primeiros dias, você vai dar a mão, para que sinta-se segura e entenda o que tem que fazer. Aos poucos, você precisa ir soltando as mãozinhas. Você sempre estará ali para ajudá-la no processo. Você vai aplaudir, mas também vai dar consolo caso não consiga nas primeiras tentativas”, exemplifica a especialista.
Aprender a dormir com autonomia é um processo parecido com o aprender a andar. Por isso, a neurocientista apresenta alguns passos para auxiliar seu bebê a dormir bem e garantir uma boa noite de sono:
O primeiro passo nesse processo, aponta Jéssica, é não se comparar com outras mães e respeitar seus limites. Para conseguir praticar a paciência e a tranquilidade numa situação que tira o equilíbrio, como a privação de sono, é preciso aprender a se autorregular silenciando a mente e controlando a respiração e pensamentos. “Toda vez que sua mente te sequestrar para os pensamentos ruins, traga para o momento presente. Essa conexão com você fará total diferença no processo de ajuste de sono do seu filho”, explica a especialista.
Os bebês e crianças pequenas dependem emocionalmente de seus cuidadores para se sentirem seguros e calmos. “Você é o co-regulador do seu bebê, por isso, não ignore como você se sente”, destaca. Da mesma maneira, não compare seu bebê. É fundamental entender que cada filho é único. Por isso, sempre haverá uma situação nova a ser enfrentada, cada um terá um comportamento diante de suas necessidades, e a mãe desvendará cada um deles.
O quarto onde o bebê vai dormir deve ser preparado com antecedência, com luz baixa e um ruído branco, que mascara sons que geralmente dificultam a concentração e o sono do bebê. O termo ‘branco’ faz referência à composição da luz branca, uma luz monocromática que reflete todas as outras. Logo, o ruído branco bloqueia sons com frequências que variam muito de intensidade, como barulhos de carro e latidos de cachorro. Por ser um som constante, sem nenhum tipo de variação, cria um ambiente com a sensação de segurança como na barriga, onde ouvia os batimentos cardíacos e o fluxo sanguíneo da mãe.
Além disso, a temperatura do ambiente faz toda a diferença na qualidade de sono. A criança precisa de um clima ameno para adormecer, então se estiver muito agasalhada ou em ambiente quente, não conseguirá dormir.
Todo bebê precisa de hábitos, com horário certo para comer, brincar e dormir. O corpo vai entender a dinâmica da ingestão calórica, seguida por atividades para gasto de energia e a diminuição do nível de atividades. Uma casa com pouco barulho, por exemplo, vai ajudar nesse preparo, uma vez que os bebês têm o sono mais leve e acordam mais facilmente.
Outro ponto importante é quando a criança vai dormir exausta demais. Isso aumenta os níveis de hormônios estressores, como o cortisol e a adrenalina, que não a deixam aprofundar o sono em nenhum momento. O resultado é que os despertares noturnos tornam-se frequentes e sonecas muito curtas.
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Ter uma rotina saudável mantém o corpo em equilíbrio. Por isso, é primordial que o cansaço esteja medida certa, o entendimento sobre as necessidades da criança, o gasto de energia de acordo com a capacidade biológica e permitir que a criança seja criança.
Até os três meses de vida as necessidades dos pequenos são muito específicas, mas a partir do quarto mês, o sono passa por grandes mudanças. Por isso, a rotina saudável e equilibrada necessita de um horário regular para começar o dia, com o ajuste do relógio biológico, porém respeitando o sono da criança.
Para dormir, além de estar com sono e relaxado, o bebê precisa ter suas necessidades emocionais supridas, como sentir a presença da mãe. Ele nunca deve ficar sozinho acordado no berço, até que conquiste confiança. Dessa maneira, o passo seguinte é a retirada de associações de sono como dormir mamando, chupeta, colo, balanço ou mexer no cabelo dos pais. “Cada passo é gradual, de acordo com a maturidade da criança”, pontua Jéssica.
Assim, uma criança que dorme bem, consegue desenvolver seu sistema neurológico, se autorregular, aprender melhor e fortalecer seu sistema imunológico. “Porém, é preciso respeitar o ritmo fisiológico da criança por meio de atividades que se relacionem com o ritmo natural dela”, finaliza a especialista.
Fonte: Jéssica Africano, neurocientista especialista em sono infantil.