O relacionamento abusivo é um termo complexo e refere-se às relações de poder e controle sobre o outro de maneira nociva. Assim, pode ocorrer não só em relacionamentos afetivos, como também em outros tipos.
De acordo com Thais Infante, psicóloga clínica focada em terapia de casais e família, a relação abusiva costuma se desenvolver de forma sútil, mantendo os parceiros presos neste vínculo por anos.
A agressão física é o sinal mais comum em um relacionamento abusivo, mas existem outros tipos de violência que precisam de atenção. Incluindo a violência sexual, financeira, e a tecnológica (monitorar todos os acessos virtuais de seu parceiro, whatsapp, redes sociais, etc). “Críticas e humilhações, controle de comportamentos, roupas, ameaças e chantagens são características comuns nesse tipo de relação”, explica Thais.
Dessa maneira, muitas vezes, esses tipos de violência são difíceis de distinguir, confundido os parceiros e retardando a busca por ajuda.
Além disso, a especialista entrevistada ressalta que o parceiro abusivo costuma alegar que faz o que faz por amor, pede desculpas e promete não voltar a repetir a situação de conflito. “São promessas que se esfacelam rapidamente. Pessoas de qualquer idade, gênero, etnia ou orientação sexual podem ser vítimas de abuso. Devemos estar atentos à culpabilização da vítima, que em geral é julgada por não denunciar e ter dificuldade de abandonar o parceiro abusador.”
Uma relação abusiva pode ter diversas consequências na vida da vítima, incluindo problemas financeiros, sentimento de vergonha da situação e até, em situações mais graves, ideação ou tentativas de suicídio. Essa experiência também pode desencadear transtornos de ansiedade, depressão, compulsão e transtorno do estresse pós-traumático
“Apesar de conflitos e problemas serem parte de praticamente todas as relações amorosas, relações saudáveis envolvem trocas, respeito e diálogo entre duas pessoas que são livres para pensar, agir e discordar, embora se amem. Pois amar não significa nem submissão nem ausência de conflitos”, lembra Thais.
Reconhecer os sinais de uma relação abusiva pode ser fundamental para estarmos atentos e evitar entrar ou sair de uma relação tóxica. Portanto, confira abaixo a lista feita pela psicóloga Thais:
Se o seu parceiro faz ameaças contra você, isso pode ser um sinal perigoso de abuso físico futuro.
As ameaças podem incluir ações como:
Danificar a propriedade dentro de um relacionamento é um sinal de controle. Assim, o agressor pode danificar objetos de que você precisa para trabalhar e ganhar dinheiro, como um laptop ou seu carro, o que também pode limitar sua independência.
Quebrar objetos também é uma maneira de um agressor ameaçar sua vítima. Desse modo, a pessoa usa danos materiais para incutir medo em seu parceiro.
O agressor pode tentar controlá-lo limitando sua capacidade de sair de casa, assumindo o controle de suas finanças e monitorando sua atividade online.
Geralmente, começa de forma “leve”, como ligar ou enviar mensagens de texto constantemente quando você está longe deles, mas pode aumentar rapidamente. Alguns comportamentos controladores a serem observados incluem:
Não existe um momento em qualquer relacionamento que insultos e xingamentos sejam aceitáveis.
Portanto, se um parceiro começa a usar insultos, linguagem obscena ou xingamentos em um relacionamento, isso demonstra falta de respeito pela vítima e sugere que o agressor desvaloriza a vítima.
Os insultos também podem afetar a autoestima, fazendo com que ela se sinta menos amável e menos propensa a deixar seu agressor.
O isolamento é uma tática fundamental para os agressores garantirem que outras pessoas não percebam que suas vítimas estão sendo abusadas.
Assim, ele desencoraja o contato com outras pessoas de maneira sutil e manipuladora, impedindo que os entes queridos sejam capazes de detectar mudanças de humor ou bem-estar.
Os agressores não precisam necessariamente usar ameaças ou violência para mantê-lo em casa. Eles podem desencorajar uma vítima de ver seus entes queridos dizendo frases como, por exemplo: “Vou sentir sua falta se você sair”; “Por favor, fique em casa comigo”; “Eu preciso de você”. Quando um agressor diz essas coisas, eles incentivam sua vítima a se voltar para o agressor e se afastar de seu ente querido.
Love-bombing é uma técnica usada por abusadores para atrair sua vítima e manipular seus sentimentos, muitas vezes no início de um relacionamento ou após um surto de violência ou controle:
Eles podem usar declarações exageradas e dramáticas como “Você é minha alma gêmea”, “Nós estávamos destinados a ficar juntos” ou “Eu não posso viver sem você”, mesmo que vocês mal se conheçam.
O bombardeio de amor também pode incluir gestos excessivamente dramáticos e contínuos, por exemplo, dar presentes caros ou enviar buquês de flores vistosos para o local de trabalho da vítima. Presentes públicos também podem ser uma forma de marcar território, uma maneira sutil de os abusadores dizerem aos outros que suas vítimas pertencem a eles.
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Você nunca deve sentir que seu parceiro está exigindo que você faça alguma prática sexual que você não quer ou culpar você por não querer isso. Isso porque a pressão sexual pode ser um sinal de alerta para abuso em que seu parceiro não o ouve e/ou não respeita seus sentimentos e pedidos.
Caso isso aconteça, esteja ciente de que a situação é uma forma de abuso emocional e pode ser considerado agressão sexual.
A violência física pode parecer uma forma óbvia de abuso, mas geralmente começa com atos menores e depois aumenta com o passar do tempo.
O abuso pode começar com uma ameaça e depois levar agressões físicas como beliscar, agarrar ou empurrar. Se o agressor conseguir escapar impune de seus atos, eles estão propensos a continuar o abuso, batendo, estrangulando, etc.
O estrangulamento é uma forma de violência especialmente perigosa – um estudo de 2007 descobriu que as mulheres que já haviam sido estranguladas por um parceiro tinham sete vezes mais chances de serem mortas por esse parceiro mais tarde.
Para familiares e amigos da vítima, é importante acolher, ouvir, não julgar e auxiliá-la a buscar ajuda. Muitas vezes é preciso ter um plano e fortalecer a rede de apoio para evitar que conflitos maiores aconteçam.
“Nunca é fácil e simples sair de relações abusivas: muitas pessoas precisam de várias tentativas para conseguirem romper o ciclo tóxico em suas vidas. Assim, podemos considerar que todos envolvidos, filhos, amigos e parentes também sofrem junto e precisarão de apoio e orientação. A psicoterapia nestes casos auxilia tanto no processo de consciência sobre as violências sofridas, quanto no processo de sair da relação e no tratamento pós-trauma”, ressalta a psicóloga.
Se você identificou os sinais e está em um relacionamento abusivo, saiba que você merece ser ouvida, vista e respeitada. A psicóloga Thais lembra que as vítimas devem ficar atentas aos mínimos sinais de alerta. Por isso, lembre de procurar alguém em quem confie, como um médico, amigo ou terapeuta que pode ajudá-lo a criar um plano de segurança e identificar uma estratégia de saída.
Mas caso você precise de orientação para planejar uma estratégia de saída, entre em contato com a linha direta nacional, a Central de Atendimento à Mulher. Para ligar, basta discar 180.
“Na maioria dos casos graves o primeiro passo é registrar o boletim de ocorrência. Neste momento, se você já conseguiu reunir provas (conversas no WhatsApp, e-mails, comentários em redes sociais, vídeos, fotos, histórico médico, laudo etc), é importante imprimir e levar junto. Quanto mais provas forem anexadas, maior a chance do processo ter elementos mínimos para ir adiante e chegar a uma condenação. Além disso, solicitar uma medida protetiva também é importante, pois garante que o agressor não terá contato com a vítima”, afirma Thais.
Por fim, após denunciar, a mulher é encaminhada à rede de apoio e proteção, incluindo atendimento psicológico. E, se você conhece alguém que é vítima desse tipo de violência, mostre-se disponível para ajudar.
Fonte: Thais Infante, psicóloga clínica focada em terapia de casais e família.