Quem acompanha a novela “Travessia“, da TV Globo, viu que a personagem Brisa (Lucy Alves) fez um exame de DNA para descobrir algum parente de sangue. Anteriormente, ela também tinha feito um exame de paternidade para provar que Ari (Chay Suede) não era pai de seu filho, o que se provou mentira. Após o cruzamento desses dois exames, porém, ela fez uma descoberta surpreendente: ela não é mãe de seu filho e e perde os direitos na justiça. A explicação é que a protagonista sofre de quimerismo, uma rara condição genética cujo portador possui células com dois DNAs distintos. Entenda mais sobre a condição!
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Segunndo o Dr. Alexandre Lucidi, médico geneticista, a pessoa quimera tem dois materiais genéticos diferentes nas células. Este é um fator que pode acontecer durante o transplante de células tronco, porém também é possível nascer com a formação.
Na teoria, acontece quando no útero, há dois embriões fecundados que geram dois zigotos (mesma formação de gêmeos). No entanto, os embriões se fundem, originando apenas um bebê que possui dois materiais genéticos diferentes. No caso da novela, ao analisar o DNA de Brisa, não há compatibilidade 100% com seu filho, que recebeu apenas uma parte do material da personagem.
O quimerismo pode ter uma dessas duas causa:
A condição não oferece nenhum risco à saúde, mas já obteve diversas repercussões jurídicas em testes de DNA e provas periciais genéticas.
Além de ser difícil de diagnosticar, os sintomas aparecem com pouca frequência, alguns deles são:
Além disso, existem sintomas mais raros de quem apresenta o distúrbio genético, por exemplo:
De acordo com uma reportagem do Fantástico em 2017, no Brasil existiam apenas 30 casos registrados na época, por conta do diagnóstico passar despercebido. Além disso, existem variações, algumas em que também é possível que a mãe fique com as células do feto.
De acordo com o médico, o método STR, que analisa a constituição genética, é o mais usado, pois mede as quantidades relativas de produtos do alelo STR entre o doador e o receptor em casos de transplantes de células-tronco.
Assim, o teste avalia a mistura de DNA do doador e do receptor no sangue ou na medula óssea do receptor. Para realizar a análise de quimerismo, as amostras do receptor e do doador pré-transplante são coletadas e usadas para comparação com as amostras do receptor pós-transplante. As células doadoras e receptoras são diferenciadas umas das outras usando marcadores únicos de CNV (variação do número de cópias) que fornecem perfis genéticos exclusivos.
Por fim, se não diagnosticado, o quimerismo pode resultar em um teste de paternidade de DNA de paternidade falso-negativo. De fato, existem vários casos em que mães ou pais quiméricos quase perderam os direitos dos pais, assim como aconteceu na novela “Travessia”. Um diagnóstico de quimerismo também pode beneficiar a saúde mental de pessoas que passam por uma crise de identidade. Normalmente, o quimerismo não afeta negativamente a saúde de uma pessoa, mas um diagnóstico pode ajudar a entender e se preparar para eventos inexplicáveis.
Fonte: Dr. Alexandre Lucidi, médico geneticista, atuante em Neurogenética e Neuroimunologia.