Perfeccionismo: o que é e como pode afetar a saúde mental

Bem-estar Equilíbrio
22 de Agosto, 2023
Lívia Barbosa Alves de Souza
Revisado por
Psicóloga • CRP 01/22261
Perfeccionismo: o que é e como pode afetar a saúde mental

O perfeccionismo nunca esteve tão presente nas nossas vidas. Como o próprio nome sugere, o perfeccionismo é um traço de personalidade caracterizado pela busca incessante em atingir a perfeição em uma tarefa ou objetivo. Com o peso das redes sociais nas rotinas, esse desejo se torna mais forte, porque desperta a comparação.

No virtual, a vida das pessoas parece ser melhor do que as nossas, impressão que traz o sentimento de frustração e, muitas vezes, a necessidade de se superar. Aí que mora o perigo: não é errado querer evoluir e ter ambições, mas sim a forma como você encara o processo para conquistar suas metas e aspirações. Continue lendo e entenda!

Leia também: Narcisismo: O que é e como identificar o transtorno

Perfeccionismo é doença?

O perfeccionismo é um traço que pode estar presente em diversos transtornos, como o Transtorno de Personalidade Obssessivo-Compulsivo. Apesar de ter o potencial de gerar problemas de saúde mental, nem sempre o perfeccionismo é um vilão. A psicóloga cognitivo comportamental, Rejane Sbrissa, aponta que em alguns casos, essa característica pode ser bem aplicada, mas é necessário que seja dosada e controlada.

“Os perfeccionistas prestam muita atenção aos detalhes, são bem observadores e meticulosos e, estas características podem ser úteis em algumas tarefas e profissões. No entanto, é necessário ter equilíbrio, pois ao querer que tudo saia perfeito para evitar críticas, desaprovação e rejeição, o perfeccionista cria regras muito rígidas para si mesmo e, com isso, ultrapassa o limite do saudável. Dessa forma, pode se tornar obsessivo, sentindo-se sempre fraco, incapaz e frustrado quando não atinge o padrão de perfeição que se impõe”, afirma.

No entanto, um padrão de comportamento perfeccionista, quando praticado de forma exagerada, pode significar um peso para a pessoa e influenciar em diversos problemas de ordem mental, como depressão, ansiedade, insônia e até mesmo distúrbios alimentares

Perfeccionismo na prática

O padrão de comportamento perfeccionista costuma se apresentar desde a infância. Imagine um aluno que se dedica aos estudos com afinco, entrega todos os trabalhos, recebe a nota das provas e se depara com um 9. Uma nota boa, mas que é recebida com decepção por esse aluno, que acredita que poderia ter se esforçado mais. 

As duas palavras conjugadas no futuro do pretérito – “poderia” e “deveria” a imperam os pensamentos da mente perfeccionista, que nunca está satisfeita com as situações do momento. Essa forma de lidar com as coisas traz como consequência a forte exigência sobre si próprio, com cobranças excessivas para se destacar e não decepcionar. E se isso ocorre, é como se tivesse fracassado. 

Principais características 

De acordo com a psicóloga Rejane, para identificar o perfeccionismo, é preciso prestar atenção ao conjunto de sinais, por mais que alguns sejam evidentes. Confira os principais a seguir: 

  • Alto padrão de cobrança sobre si e os outros;
  • Estabelece metas ambiciosas; 
  • Muita dedicação; mira somente a perfeição ou nada;
  • Concentram-se nas falhas, dando muita importância ao erro ;
  • Ignoram aspectos de resultados que acreditam não serem perfeitos, frustrando por todo um trabalho feito;
  • Dificuldade em aceitar ou aprender com erros; sentem-se sempre culpados.

Quando o perfeccionismo se torna um problema

Embora seja uma característica muito benquista no mundo corporativo – um funcionário perfeccionista se empenha em entregar a melhor ideia, o resultado mais expressivo – não é uma qualidade boa se for levada ao extremo. Afinal, existe uma linha tênue entre perfeccionismo e dedicação em entregar o seu melhor.

O perfeccionista tem muito a perder porque:

  • É duro demais consigo próprio a ponto de não celebrar as realizações. Nunca será o suficiente. 

  • A necessidade de executar todas as atividades com tamanha perfeição pode atrapalhar a rotina. O fato de nunca nada estar bom o bastante pode paralisar a tomada de decisões importantes, porque o momento ideal sempre está longe de acontecer. Além disso, pode levar à repetição de tarefas para que se alcance o que o perfeccionista considera ideal. Então, a qualidade antes estimada no ambiente profissional pode jogar contra a produtividade do indivíduo.

  • Esse traço da personalidade pode gerar estresse e ansiedade.

  • O perfeccionismo é uma forma de se depreciar, de não honrar seus próprios méritos, que causa problemas de autoestima e insegurança. 

  • Pode impedir o convívio em harmonia com colegas de trabalho e pessoas do círculo social, que se sentem intimidadas ou constrangidas, porque o perfeccionista é um duro crítico do trabalho e atitude dos outros que o cercam. 

  • Pode pressionar pessoas próximas por exigir os mesmos padrões de perfeição. Um exemplo é de pais perfeccionistas, que impõem uma carga de responsabilidade e excelência muito pesada sobre os filhos. Essa pressão sobre as crianças traz o risco de uma geração de novos perfeccionistas, que poderão repetir o mesmo padrão sobre seus sucessores. 

Tipos de perfeccionismo 

Para lidar melhor com o problema, é necessário identificá-lo e conhecê-lo em sua totalidade, já que o perfeccionismo possui diferentes formas de manifestação no comportamento.

  • Tipo pessoal: foco na autoavaliação, exigência grande sobre si mesmo. 
  • Perfeccionista social: preocupação excessiva sobre o que os outros acham dele. Neste caso ficam tentando atender as supostas expectativas alheias, medo da rejeição e de críticas. 
  • Perfeccionismo orientado para os outros: o que se espera dos outros com padrões bem rígidos e exigentes. São intolerantes aos erros e defeitos dos outros e têm dificuldade de se relacionar.

Como ser menos perfeccionista?

Lembre-se que perfeição não existe, o mundo não é dual e nada é absolutamente bom ou absolutamente ruim. O perfeccionismo é um traço da personalidade, ou seja, faz parte da pessoa, que em algum momento da vida passou a adotar esse comportamento, seja em sua criação familiar, de amigos e trabalho. Hoje, é comum ser vítima do perfeccionismo porque a sociedade incentiva esse comportamento – como já dito, as redes sociais, televisão, mídia – tudo conspira para que as pessoas busquem suas melhores versões, que se refletem no excesso: tem que treinar mais para ter o corpo perfeito, estudar mais para ser o número 1 na faculdade, trabalhar mais para ser promovido logo. 

Portanto, o caminho para ser menos perfeccionista envolve olhar o mundo com mais equilíbrio. Confira as dicas da psicóloga Rejane Sbrissa para atenuar esse comportamento: 

  • Lembre-se que perfeição não existe, o mundo é dual e nada é absolutamente bom ou absolutamente ruim.
  • Tente perceber os danos em se exigir demais
  • Enfrente as críticas, pense sobre elas e aprenda com os erros.
  • Pense em fazer seu melhor no momento, não em ser perfeito.
  • Não se compare com os outros.

Importância da terapia

O fato é que a perfeição não existe, é apenas um ideal que habita o imaginário, porque o conceito do “perfeito” é relativo. Por isso, se você percebe que o perfeccionismo atrapalha sua vida, ou ouve com frequência de pessoas próximas que seu comportamento é prejudicial para si próprio, busque ajuda profissional. 

“O perfeccionista precisa procurar um tratamento psicológico quando perceber que sua vida pessoal está sendo afetada. A psicologia o ajudará a lidar com as consequências negativas do perfeccionismo, compreender as origens de tanta insegurança e busca pela perfeição, tanto medo em não poder errar ou ser criticado e auxiliará nas mudanças de comportamentos e pensamentos necessários para uma saúde mental mais equilibrada”, recomenda a psicóloga. 

Dessa forma, fazer terapia e buscar conforto no diálogo com um psicólogo é fundamental para auxiliar a quebrar esse padrão de comportamento e a identificar as origens da busca pela perfeição.

Com o apoio profissional, o perfeccionista aprende a se observar com menos julgamentos e a abraçar suas imperfeições e falhas. E, principalmente, com o tempo, aprende a reconhecer as próprias conquistas e a traçar objetivos com mais leveza. 

 

Fontes: Dr. Yuri Busin – psicólogo, doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (CASME); e Rejane Sbrissa, psicóloga cognitivo comportamental. 

 

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