Alimentação e saúde cardíaca: quais são as recomendações?

Há uma nova lista de recomendações nutricionais para uma boa saúde cardiovascular, divulgada no fim de 2021 pela Associação norte-americana do Coração (AHA, na sigla em inglês). Acima de tudo, as orientações têm foco nos padrões alimentares e no equilíbrio das escolhas, sem citar, especificamente, quais itens seriam “proibitivos” ou “liberados”. Ao todo, dez pontos compõem o documento, sendo todos eles baseados em evidências e relacionando alimentação e saúde cardíaca. Confira a lista da entidade:

  • 1. Primeiramente, ajustar a quantidade de calorias ingeridas e o gasto calórico para alcançar e manter um peso saudável.
  • 2. Ingerir grande quantidade de frutas e vegetais, de variedades diferentes.
  • 3. Optar por alimentos integrais ou feitos com cereais integrais em vez de grãos refinados.
  • 4. Escolher fontes saudáveis de proteínas, principalmente de origem vegetal (leguminosas e nozes); comer regularmente peixe e marisco; preferir produtos lácteos desnatados e com baixo teor de gordura às versões integrais; optar por cortes magros de carne em vez de formas processadas.
  • 5. Preferir óleos vegetais líquidos a óleos tropicais (coco, palma, palmiste) e gordura animal (banha e manteiga), ou optar por gorduras parcialmente hidrogenadas.
  • 6. Dar preferência aos alimentos minimamente processados (alimentos in natura) ao invés dos ultraprocessados.
  • 7. Diminuir o consumo de bebidas e alimentos com adição de açúcar.
  • 8. Escolher alimentos com pouco ou nenhum sal.
  • 9. Se não consome bebida alcoólica, não comece e, se consome, limite a quantidade.
  • 10. Seguir essas recomendações independentemente de onde os alimentos são preparados ou consumidos.

Má alimentação

O impacto da má alimentação na saúde cardíaca é velho conhecido. Somada ao sedentarismo, à obesidade e ao controle inadequado da pressão arterial, do colesterol, do estresse e do diabetes, cria-se o terreno ideal para o surgimento de doenças cardiovasculares. Segundo o médico cardiologista Francisco Maia da Silva, do Hospital Israelita Albert Einstein, também professor de cardiologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), chefe do serviço de cardiologia da Santa Casa de Curitiba e coordenador da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), estas são a maior causa de mortalidade no mundo, com cerca de 16 milhões de eventos cardiovasculares somente em 2019, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“É uma triste realidade que pode ser transformada com atitudes preventivas, que envolvem medidas de reeducação para uma alimentação saudável para o coração e outras mudanças de estilo de vida. São medidas não farmacológicas capazes de reduzir a ocorrência dos eventos cardiovasculares”, diz o médico.

Impacto da alimentação na saúde cardíaca

Dentro da proposta da reeducação alimentar e corroborando as orientações da AHA, segundo Maia, a recomendação geral inclui a redução do sal, o aumento no consumo de frutas, verduras e legumes e a eliminação de gorduras trans da dieta. “Essas condutas já geram um impacto positivo muito grande na saúde do coração. Pessoas que abusam das gorduras trans apresentam aumento do colesterol total e do LDL (o ‘ruim’) e redução no HDL (o ‘bom’), por exemplo, que atua como fator de proteção. Ela está presente em bolos, sorvetes, croissants e vários outros alimentos, tendo impacto direto nesses níveis”, destaca o especialista.

A preferência, então, deve ser sempre por gorduras poliinsaturadas, presentes em fontes como canola, soja, linhaça, salmão e sardinha, por exemplo. Além disso, o ômega 3, uma gordura boa fornecida por esses alimentos, pode ainda ser adquirida em cápsulas, como medida para melhorar o perfil lipídico do paciente.

“Tudo isso precisa ser aliado à atividade física, ao controle do estresse e à interrupção do tabagismo. Ademais, é muito importante reduzir a ingestão de carboidratos, especialmente em cidades mais frias, onde o consumo deste tipo de nutriente costuma ser maior. Quanto mais carboidrato ingerido, mais aumentam os triglicerídeos, que se relacionam inversamente com o HDL. Ou seja, triglicerídeos altos significam HDL baixo”, explica Maia.

Efeitos

Para quem acredita que as melhoras demoram a aparecer e, por isso, adiam as mudanças na alimentação e no estilo de vida, uma boa notícia: espera-se que os efeitos sejam notados em 90 dias, quando o paciente é orientado a repetir o perfil lipídico (um exame de sangue simples) para acompanhar as taxas. “Conscientização para começar e manter os novos hábitos, portanto, é fundamental. Calculado o risco do paciente na primeira consulta, é estabelecida uma meta e um plano para uma boa adesão ao novo estilo de vida, que inclui também outros profissionais”, destaca o cardiologista.

Reeducar-se é um processo

De acordo com a nutricionista Ivone Mayumi Ikeda Morimoto, professora do curso de Nutrição da PUCPR, é importante fazer uma análise primeira do esquema alimentar diário do paciente, estabelecendo comparativos com um esquema alimentar saudável. “Feito isso, a ideia é que, na prática, metade do prato do paciente contenha vegetais cozidos ou crus e que leguminosas como feijão sejam consumidas diariamente. Além disso, no café da manhã, é importante combinar uma fonte láctea com cereais como granola e aveia, além de uma fruta. Assim, quando o ajuste acontece refeição a refeição, estabelecendo metas de forma progressiva, o avanço é notável nas próximas consultas”, comenta.

Ela lembra que preferências individuais também precisam ser levadas em conta. Assim, é possível criar uma dieta ao gosto do paciente, sempre estimulando opções integrais, leguminosas e vegetais. “Um próximo passo seria, sobretudo, fazer com que o paciente analise seus hábitos anteriores, passando a conhecer, em detalhes, as opções ultraprocessadas e as várias substâncias desconhecidas que fazem parte da composição desses alimentos. Comparando a quantidade de nutrientes presentes nesses alimentos e naqueles minimamente processados e in natura, o paciente se educa no processo”, explica.

Morimoto destaca que não há proibições, mas liberações esporádicas. Sódio e açúcar, por exemplo, devem ser vistos como a exceção da regra. “A longo prazo, o paciente passa a entender conceitos mais importantes, como os tipos de gordura e seus efeitos sobre o sistema cardiovascular. Essa é a verdadeira reeducação alimentar e nutricional”, analisa.

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Alimentação boa para saúde cardíaca

Os maiores estudos sobre dietas específicas para o coração versam sobre a mediterrânea e a DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension). Na DASH, são preconizadas de oito a 10 porções de vegetais e frutas ao dia, bem como a utilização, de rotina, de alimentos lácteos desnatados e com baixos teores de gorduras e de oleaginosas. “Analisando as novas recomendações da AHA, vemos que elas trazem muito da DASH, mas também da mediterrânea, que sugere o consumo de peixes. No Brasil, o consumo de pescados ainda é um desafio e, mesmo nas regiões produtoras, segue abaixo do ideal entre a população”, avalia a nutricionista.

Os vilões do coração

Alimentos ultraprocessados, por exemplo, que contêm grande quantidade de sódio e de gorduras trans (gorduras vegetais hidrogenadas), responsáveis por dar crocância, cremosidade e maciez aos alimentos industrializados, são vilões importantes da saúde cardíaca. “Há um esforço do governo brasileiro e da Anvisa em banir esse tipo de gordura no país até o ano de 2023. Até lá, entretanto, empresas terão que fazer um esforço extra para encontrar substituições, dada a futura indisponibilidade do ingrediente para a fabricação. Essa é uma novidade muito boa para a saúde cardíaca”, diz Ivone.

Por fim, carnes vermelhas, enlatados, embutidos e conservas, que têm grande quantidade de sódio, também entram nessa conta. “A disponibilidade de ervas aromáticas na cozinha brasileira é imensa e seu uso como tempero deve ser encorajado. Diria que a chave para uma reeducação efetiva é fazer com que o paciente entenda o conceito de alimentos minimamente processados, processados, ultraprocessados e in natura, inclusive bem descritos no Guia Alimentar para a População Brasileira, utilizado também em outras partes do mundo”, finaliza a nutricionista.

(Fonte: Agência Einstein)