Como o cigarro, inclusive eletrônico, reduz a expectativa de vida

Saúde
25 de Junho, 2024
Como o cigarro, inclusive eletrônico, reduz a expectativa de vida

O tabagismo pode reduzir em até 14 anos a expectativa de vida de mulheres e em 10 a dos homens. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 8 milhões de pessoas morrem anualmente em consequência do hábito de fumar. Especialmente no Brasil são cerca de 200 mil óbitos por ano.

A “moda” do cigarro eletrônico

As informações acima não valem apenas para o cigarro comum. Moda entre os jovens e artifício usado entre os mais velhos na tentativa de evitar o cigarro comum, os dispositivos eletrônicos, também chamados de vapes, são um problema, já que consumidores desse tipo de aparelho apresentam índices de nicotina no organismo equivalentes a fumar 20 cigarros convencionais por dia. O assunto foi discutido no final de maio, durante o 44º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

Os efeitos da nicotina no corpo humano

A nicotina é um composto presente nas plantas de tabaco e a principal causadora de dependência dessa droga. Ela é absorvida pelo organismo por meio da fumaça do cigarro, ultrapassa a barreira do sangue e chega ao cérebro muito rápido — em cerca de nove segundos após a tragada. Sendo assim, ao chegar ao sistema nervoso central, ela estimula uma série de receptores e provoca sensação de prazer e bem-estar. Mas por pouco tempo, o que faz o fumante querer uma nova dose de nicotina em poucos minutos.

“A nicotina é uma droga psicoativa, que chega ao sistema nervoso central de uma forma muito rápida. Com os vapes, ela chega mais rápido ainda ao cérebro e isso leva a um grau de dependência muito grande”, explica o pneumologista Marcelo Rabahi, do Hospital Israelita Albert Einstein de Goiânia. A nicotina presente nos vapes é a mesma do cigarro comum.

“Os adolescentes começam a usar as versões eletrônicas com aromas, como se fosse uma brincadeira. Mas a droga que causa dependência está presente e provoca a necessidade de utilizar o vape em intervalos cada vez menores. E como a informação entre os jovens é a de que o cigarro eletrônico não faz mal à saúde, o uso é cada vez maior”, alerta Rabahi.

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Por que ocorre a redução da expectativa de vida?

A redução da expectativa de vida entre usuários de cigarro convencional ou eletrônico acontece justamente porque os consumidores apresentam índices de nicotina no organismo muito elevados e, consequentemente, estão mais suscetíveis a desenvolver os problemas de saúde relacionados ao tabagismo. Entre elas, estão doenças respiratórias como a bronquite crônica e o enfisema, e ainda câncer de pulmão e doenças cardiovasculares, a exemplo de arritmias cardíacas, infarto e o acidente vascular cerebral (AVC).

“O tabagismo aumenta o risco de lesões no endotélio dos vasos sanguíneos, levando a doenças cardiovasculares. Além disso, o cigarro possui substâncias cancerígenas que levam ao câncer de pulmão. Fumar também provoca alterações e destruição da parede interna dos brônquios, que vão ficando inflamados, e isso causa bronquite. Também há destruição dos espaços alveolares, por onde o oxigênio chega no pulmão e passa para o sangue, causando enfisema”, exemplifica Rabahi.

Segundo a cardiologista Jaqueline Scholz, assessora científica da Socesp e especialista no tratamento do tabagismo, o coração é o órgão mais prejudicado pela nicotina.

“A substância é responsável por liberar adrenalina, que acelera o coração, aumenta o consumo de oxigênio e a pressão arterial. Esse processo favorece a aterosclerose, o infarto, a morte súbita e o AVC. E isso consequentemente reduz a expectativa de vida dos consumidores”, alerta a especialista, que palestrou sobre o assunto no congresso.

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Polêmica na regulamentação

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe o comércio de cigarros eletrônicos desde 2009. Em abril de 2024, a agência reguladora manteve a proibição, após ampla análise dos resultados das pesquisas científicas mais atuais sobre o tema. Apesar disso, o consumo ocorre livremente no país, especialmente entre os mais jovens.

E o imbróglio está longe de acabar. Um projeto de lei (PL 5008/2023) em andamento no Senado autoriza, mediante registro na Anvisa, a produção, o consumo, a venda, a exportação e a importação dos cigarros eletrônicos. O texto proíbe o uso dos vapes em espaços fechados, além da venda e do consumo por menores de idade. O senador Eduardo Gomes (PL-TO), relator do texto, avalia que o projeto poderá “reduzir danos” do mercado desenfreado de cigarros eletrônicos. Indo contra a decisão da Anvisa de manter a proibição desses dispositivos, os senadores votariam a proposta no último dia 11 de junho, mas a reunião foi adiada.

“Apesar de não expor o usuário ao monóxido de carbono, uma vez que não ocorre combustão [o aquecimento é feito por bateria], o vape promove a dependência de nicotina. A adoção do conceito de redução de danos, indevidamente apropriada pela indústria do tabaco, não passa de mais uma estratégia de marketing”, alerta Sholz, da Socesp.

Em última análise, o médico do Einstein também afirma ser contra a liberação dos cigarros eletrônicos no Brasil. “Sou totalmente contra, porque eles são absolutamente maléficos para a saúde. Aqueles países que assumiram posição de liberar estão revendo seus posicionamentos. O vape não é recreativo, mas uma forma nova, disfarçada e diabólica de estimular o uso da nicotina para que as pessoas fiquem dependentes dessa droga”, adverte Marcelo Rabahi.

Fonte: Agência Einstein.

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